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O Lobo Algorítmico - Parte IV - Capítulo XVIII - O Silêncio

carlospessegatti
1 de set.
4 min de leitura


Naquela manhã, ele não abriu as redes.


Não houve uma decisão solene, nenhum gesto de revolta, nenhuma declaração íntima de liberdade. Não jogou o telefone contra a parede, não apagou suas contas, não anunciou aos amigos que estava partindo.


Apenas acordou e, pela primeira vez em muitos anos, não quis saber o que estava acontecendo.


O telefone estava sobre a mesa de cabeceira.


A tela permanecia escura.


Ele olhou para ela durante alguns segundos.


Esperou que alguma coisa acontecesse.


Nada.


Era estranho perceber que o mundo continuava existindo sem lhe pedir atenção.


Levantou-se.


Tomou café.


Lavou a xícara.


Abriu a janela.


Só então percebeu que havia esquecido o telefone.


Voltou ao quarto.


Pegou o aparelho.


Havia mensagens.


Poucas.


Depois outras.


Notificações.


Sugestões.


Lembretes.


Uma fotografia de alguém que não via havia anos.

Uma notícia sobre uma guerra distante.

Um vídeo de quinze segundos.

Uma opinião que não havia solicitado.

Uma lembrança que o sistema decidira devolver-lhe naquela manhã.


Ele ficou olhando para a tela.


Tudo parecia importante.


E, ao mesmo tempo, nada parecia realmente importante.


Deslizou o dedo.


Parou.

Voltou.


Desligou as notificações.

Depois desligou o aparelho.


Foi um gesto pequeno.

Quase ridículo.


Mas, quando a tela desapareceu, sentiu uma espécie de vazio.

Ficou parado.


O silêncio que imaginara encontrar não veio.


Veio outra coisa.


A ausência.


Ele percebeu então que não estava apenas acostumado às redes.


Estava acostumado à presença permanente de alguma coisa.


Alguma coisa que o chamava.


Que o interrompia.

Que o lembrava de existir.

Que dizia o que olhar, o que ouvir, o que desejar, o que comentar, o que temer.


Durante anos havia confundido essa presença com companhia.


Agora começava a compreender que talvez fossem coisas diferentes.


Colocou o telefone dentro da gaveta.

Fechou-a.


Permaneceu diante dela.


Sentiu vontade de abri-la novamente.


Não abriu.


Saiu de casa.


A cidade parecia diferente.


Não porque tivesse mudado.


Ele é que estava olhando para ela sem uma tela entre os olhos e as coisas.


Durante muito tempo, havia aprendido a atravessar as ruas enquanto observava outra cidade dentro do telefone.


Uma cidade paralela.


Mais veloz.

Mais brilhante.

Mais absurda.


Uma cidade onde tudo acontecia ao mesmo tempo e nada precisava ser tocado.


Agora caminhava sem saber exatamente para onde.


Um ônibus passou.


Uma mulher discutia com alguém ao telefone.

Um menino corria atrás de uma bola.

Um homem dormia sentado num banco.

Uma árvore deixava cair algumas folhas sobre a calçada.


Ele parou.


Olhou para as folhas.


Durante alguns segundos teve vontade de fotografá-las.

Sorriu.


Não fotografou.


Continuou andando.


Era uma experiência estranhamente difícil: ver alguma coisa sem transformá-la imediatamente em lembrança digital.


Uma experiência ainda mais difícil: viver alguma coisa sem testemunhas.


Foi então que compreendeu que havia uma diferença entre memória e registro.


O registro dizia:

isto aconteceu.


A memória dizia:

isto aconteceu comigo.


Talvez tivesse passado anos produzindo registros e perdendo experiências.


Sentou-se numa praça.


Havia crianças brincando perto de uma fonte.


Um cachorro dormia ao lado de um homem que lia jornal.


Uma mulher empurrava um carrinho de bebê.


Nada extraordinário acontecia.


E talvez fosse justamente isso que tornava tudo extraordinário.


Durante anos o algoritmo lhe ensinara que aquilo que merecia atenção precisava ser excepcional.


Uma tragédia.

Uma descoberta.

Uma celebridade.

Uma indignação.

Um escândalo.

Uma novidade.

Uma imagem perfeita.


O banal não tinha valor porque não produzia reação.


Agora ele começava a suspeitar do contrário.


Talvez a vida fosse constituída quase inteiramente por coisas que não produziam reação alguma.


Uma sombra atravessando uma parede.


O ruído distante de um trem.


O vento movimentando uma cortina.


A espera.

O tédio.

A conversa sem importância.

O silêncio.


Tudo aquilo que o algoritmo não sabia vender porque não podia ser convertido facilmente em desejo.


Ficou ali durante quase uma hora.


Não fez nada.


E essa talvez tenha sido a coisa mais difícil que fizera em muito tempo.


À noite, voltou para casa.


O telefone permanecia dentro da gaveta.


Sentou-se na cama.


Pensou em ligá-lo.


Tinha certeza de que, naquele momento, centenas de coisas haviam acontecido.


Pessoas haviam publicado fotografias.


Alguma discussão começara.

Alguma celebridade desaparecera.

Algum político dissera alguma coisa.

Alguma guerra avançara.

Alguma nova inteligência artificial fora apresentada como capaz de transformar o futuro.


O futuro.


A palavra o fez sorrir.


Durante anos lhe haviam prometido o futuro.


Agora percebia que o futuro chegava sempre acompanhado de uma notificação.

Levantou-se.


Abriu a gaveta.


O telefone estava ali.


Negro.


Mudo.


Inofensivo.


Por um instante imaginou que, se o ligasse, encontraria novamente aquela multidão invisível esperando por ele.


Mas então teve uma sensação estranha.


Talvez a multidão não estivesse esperando.

Talvez estivesse apenas esperando alguém como ele.


Alguém disponível.

Alguém previsível.

Alguém que já havia ensinado à máquina aquilo que deveria desejar.


Fechou a gaveta.

Apagou a luz.

Deitou-se.


No escuro, percebeu que havia muito tempo não escutava o próprio pensamento sem alguma outra voz misturada a ele.


Não havia música.

Não havia vídeo.

Não havia mensagem.

Não havia comentário.

Não havia recomendação.


Nada.


A princípio, o silêncio pareceu enorme.


Depois, lentamente, começou a diminuir.


E então ele ouviu.


Não era a máquina.

Não era a rede.

Não era o algoritmo.


Era uma voz antiga.


Tão antiga que ele quase não a reconheceu.


A própria.


E, pela primeira vez em muitos anos, não teve pressa de respondê-la.



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