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Subjetividade, Consciência e Determinação Social: Quem Somos na Sociedade Algorítmica?

carlospessegatti
22 de jun.
4 min de leitura


Vivemos em uma época singular. Nunca o indivíduo foi tão exaltado e, ao mesmo tempo, tão condicionado. A cultura contemporânea insiste em afirmar que somos livres, autônomos, empreendedores de nós mesmos e inteiramente responsáveis por nossos sucessos e fracassos. Entretanto, as neurociências, a sociologia, a psicanálise e a filosofia vêm demonstrando que a constituição do sujeito é muito mais complexa do que supõe a ideologia da liberdade absoluta.

Quem somos, afinal?


Somos autores de nossa própria história ou personagens de processos biológicos, culturais e econômicos que nos antecedem?


A resposta talvez esteja na interseção entre subjetividade, consciência e determinação social.


A invenção do indivíduo moderno

A noção de indivíduo autônomo é relativamente recente na história.


As sociedades tradicionais concebiam o homem como parte de uma ordem cósmica, religiosa ou comunitária. O indivíduo moderno surge gradualmente entre o Renascimento, o Iluminismo e a Revolução Industrial. O sujeito passa a ser visto como racional, consciente e capaz de conduzir seu próprio destino.


A filosofia moderna consolidou essa visão.


Descartes colocou a consciência no centro da existência. O pensamento tornou-se a prova do ser. O sujeito passou a acreditar que habita o interior de si mesmo, como uma espécie de comandante que observa, decide e controla.


Mas os séculos XIX e XX começaram a desmontar essa certeza.


Marx, Freud e a crise do sujeito soberano

Karl Marx mostrou que os indivíduos produzem a história em condições materiais que não escolheram. As relações econômicas, as estruturas de classe e as formas de produção condicionam profundamente a consciência.


Não é a consciência que determina a vida social.


É a vida social que determina a consciência.


Freud, por sua vez, revelou que grande parte da vida psíquica é inconsciente. Nossos desejos, medos e impulsos escapam ao controle do eu racional.


Já a sociologia demonstrou que linguagem, valores, crenças e identidades são aprendidos no interior das relações sociais.


O sujeito deixa de ser uma entidade autônoma.


Passa a ser uma construção.


O cérebro e a ilusão do eu

As neurociências contemporâneas acrescentaram um novo elemento ao debate.

Diversos experimentos sugerem que determinadas decisões começam a ser processadas pelo cérebro antes que a consciência se dê conta delas. A sensação de escolher livremente pode surgir depois que o processo neural já foi iniciado.


O neurocientista Michael Gazzaniga descreve a consciência como um intérprete que constrói narrativas para explicar ações já em andamento.


A consciência seria menos uma comandante e mais uma narradora.


Essa hipótese abala profundamente a ideia tradicional do livre-arbítrio.


Se o cérebro decide antes, quem escolhe?


A resposta talvez seja desconfortável: o próprio sujeito pode ser muito menos unitário do que imagina.


A sociedade que programa desejos

Entretanto, o cérebro não existe isoladamente.


Ele se desenvolve dentro de uma cultura.


As experiências familiares, a educação, a religião, a linguagem, os meios de comunicação e as condições materiais de existência moldam continuamente os circuitos neurais.


Hoje, esse processo atinge um novo estágio.


Os algoritmos digitais passaram a disputar a formação da subjetividade.


As redes sociais monitoram comportamentos, antecipam desejos, selecionam informações e orientam a atenção. Plataformas digitais aprendem nossas preferências e devolvem conteúdos que reforçam crenças, emoções e hábitos.


A subjetividade torna-se, em parte, administrada.


Não apenas consumimos informações.


Somos consumidos por elas.


A dessimbolização e o enfraquecimento da consciência

Diversos pensadores contemporâneos observam um enfraquecimento das antigas estruturas simbólicas.


As instituições tradicionais — família, religião, escola, Estado e cultura — perderam parte de sua capacidade de organizar a experiência humana.


O sujeito contemporâneo encontra-se diante de um excesso de informações e uma escassez de significados.


O resultado é frequentemente uma subjetividade fragmentada.


O indivíduo recebe estímulos constantes, mas possui cada vez menos instrumentos para elaborar criticamente esses estímulos.


A velocidade substitui a reflexão.


A reação substitui a contemplação.


O consumo substitui o sentido.


A consciência como resistência

Nesse contexto, a consciência talvez deva ser compreendida não como uma instância absoluta de liberdade, mas como uma prática.


Ser consciente significa adquirir distância em relação aos próprios condicionamentos.


Refletir sobre as próprias crenças.

Examinar desejos.

Questionar narrativas.

Reconhecer influências.


A consciência não elimina as determinações biológicas ou sociais.


Ela cria espaços de interpretação.


Podemos não ser totalmente livres para escolher as condições de nossa existência, mas podemos desenvolver a capacidade de compreendê-las.


E essa compreensão já constitui uma forma de liberdade.


Arte, música e construção da subjetividade

A arte ocupa um papel singular nesse processo.


Ela suspende a velocidade do cotidiano.


Abre espaços de contemplação.


Produz estranhamento.


Permite que o indivíduo experimente outros tempos, outras sensibilidades e outras formas de percepção.


A música, em particular, possui a capacidade de atuar simultaneamente sobre emoção, memória e imaginação.


Num mundo governado por algoritmos, a experiência estética pode tornar-se uma forma de resistência à automatização da consciência.


Criar, ouvir, contemplar e refletir tornam-se atos de reconstrução subjetiva.


A arte recorda ao indivíduo que ele não é apenas consumidor de informações, mas também produtor de sentidos.


Entre a determinação e a liberdade

Talvez a grande lição da contemporaneidade seja abandonar os extremos.

Não somos completamente livres.


Mas também não somos máquinas biológicas programadas.


Somos seres atravessados por determinações sociais, econômicas, culturais e neurológicas.


Entretanto, possuímos a capacidade de refletir sobre essas determinações.


A subjetividade não é um dado.


É um processo.


A consciência não é uma substância.


É uma atividade.


E a liberdade talvez não seja um estado natural do ser humano, mas uma conquista permanente.


Num mundo em que algoritmos antecipam desejos, mercados moldam comportamentos e a própria neurociência questiona a autonomia do sujeito, a pergunta decisiva do século XXI talvez não seja:


"Somos livres?"

Mas sim:


"Como podemos ampliar os espaços de consciência dentro das determinações que nos constituem?"


A resposta permanece em aberto.


E talvez seja precisamente essa abertura que ainda nos torna humanos.

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