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Brás Cubas: o homem que compreendeu tudo quando já não havia mais tempo para viver

carlospessegatti
15 de jul.
4 min de leitura


Há um gesto extraordinário no início de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Machado de Assis não escolhe um herói, um sábio ou um vencedor para contar a história. Escolhe um morto.


À primeira vista, parece apenas uma ousadia narrativa. Mas talvez seja muito mais do que isso.


Brás Cubas só consegue narrar a própria existência quando a existência já não pode modificá-lo. A morte lhe concede um privilégio que a vida nunca ofereceu: o da absoluta imunidade. Nada mais pode feri-lo, seduzi-lo, humilhá-lo ou transformá-lo. Finalmente livre do risco de viver, ele pode contemplar a própria trajetória com a serenidade de quem já não pertence ao mundo.


É justamente aí que reside uma das ironias mais profundas de Machado de Assis.

Brás Cubas compreende tudo quando já não existe mais nenhuma possibilidade de mudar alguma coisa.


Ao longo do romance, Machado nos faz perceber que o verdadeiro protagonista não é apenas um homem, mas uma forma de estar no mundo. Brás Cubas possui inteligência, sensibilidade e fina percepção psicológica. Ama, deseja, ambiciona, sofre. Entretanto, cada experiência é imediatamente convertida em narrativa antes que possa transformá-lo por dentro.


A isso Machado deu um nome logo no prólogo: escrever com "a pena da galhofa e a tinta da melancolia".


Essas duas palavras resumem toda a psicologia de Brás Cubas.


A galhofa não é apenas um estilo literário; é um mecanismo de defesa da alma. É ela que suaviza a melancolia. É ela que transforma perdas em episódios espirituosos, fracassos em observações elegantes e amores em belas recordações literárias.


A experiência nunca chega inteira.


Ela é interceptada pela inteligência.


Marcela consumiu-lhe a juventude. Virgília ocupou-lhe anos da vida. Eugênia talvez tenha sido o momento em que esteve mais próximo de ser verdadeiramente atravessado pelo amor.


Mas nenhuma delas conseguiu alcançá-lo completamente.


Machado constrói essa percepção de maneira devastadora no episódio de Eugênia.


Ao descobrir que ela era coxa, Brás Cubas confessa sentir duas forças opostas: a piedade e o terror de amá-la deveras.


É uma frase quase insuportável em sua sinceridade.


Não há simples preconceito.


Não há simples covardia.


Há algo mais profundo: o medo da experiência verdadeira.


Quando percebe que poderia amar de fato, Brás Cubas recua.


E, mais uma vez, a galhofa chega antes do amor.


Anos depois, já morto, ele escreve sobre Eugênia com uma delicadeza que emociona. Reconhece sua solidão, sua dignidade silenciosa e sua caminhada manca pela vida. Mas essa lucidez chega tarde demais.


Ela já não pode reparar absolutamente nada.


Machado parece sugerir que compreender não basta.


É preciso permitir que a vida nos transforme enquanto ainda estamos vivos.


O mesmo acontece com o famoso Emplastro Brás Cubas.


À primeira vista, trata-se de um remédio destinado a aliviar a melancolia da humanidade. Um projeto quase filantrópico.


Mas o próprio Brás Cubas, agora morto e incapaz de mentir para si mesmo, revela a verdadeira motivação: desejava apenas ver seu nome estampado nos jornais, nos anúncios, nas vitrines e nas caixas do medicamento.


Não buscava a cura.


Buscava a permanência.


Queria transformar o próprio nome numa espécie de monumento contra o esquecimento.


O emplastro fracassa antes mesmo de nascer.


Como tantas outras ambições de Brás Cubas, ele morre como símbolo de uma existência que desejava o prestígio muito mais do que a transformação.


O mesmo vazio percorre sua vida política.


No célebre capítulo "De como não fui ministro de Estado", Machado escreve apenas reticências.


Cinco linhas de silêncio.


Talvez nenhum outro escritor tenha compreendido tão profundamente que existem fracassos que não precisam de palavras.


O silêncio diz tudo.


Brás Cubas desejava o cargo, não a missão.


Queria o título, não a responsabilidade.


A política aparece, assim, como outra face da mesma vaidade que alimentava o emplastro: a tentativa de construir, por fora, uma importância que nunca conseguiu nascer por dentro.


Por isso o romance inteiro parece mover-se entre dois tempos.


Existe o tempo da vida, em que tudo ainda poderia acontecer.


E existe o tempo da narrativa, quando tudo já aconteceu.


Brás Cubas vive quase sempre no segundo.


Sua inteligência é extraordinária, mas chega sempre depois.


É uma inteligência retrospectiva.


Ela ilumina os acontecimentos quando já não existe possibilidade de agir sobre eles.


Talvez seja essa a tragédia silenciosa do personagem.

Não lhe faltou lucidez.


Faltou coragem para permitir que a existência o atravessasse antes que ela se transformasse em literatura.


No último capítulo, Machado realiza sua operação mais cruel.


Brás Cubas faz um balanço da própria vida.


Como um contador examinando um livro-caixa, soma vitórias e derrotas.


O saldo parece negativo.

Mas encontra um crédito.


Não teve filhos.


Não transmitiu a ninguém "o legado da nossa miséria".


É uma conclusão de uma serenidade perturbadora.


A esterilidade converte-se em filosofia.


A ausência transforma-se em vitória.


A galhofa realiza sua última e mais sofisticada operação: transforma uma vida incapaz de gerar transformação numa elegante teoria sobre a inutilidade da existência.


É impossível fechar o livro sem sentir que Machado não escreveu apenas sobre Brás Cubas.


Escreveu sobre todos nós.


Quantas vezes transformamos a experiência em discurso antes que ela nos modifique?


Quantas vezes explicamos aquilo que nunca tivemos coragem de viver?


Quantas vezes chamamos de sabedoria aquilo que talvez seja apenas uma forma refinada de evitar a dor?


Talvez seja essa a pergunta que continua ecoando mais de um século depois.


Não por que Brás Cubas morreu.

Mas por que precisou morrer para finalmente compreender a própria vida.


E talvez a maior ironia de Machado seja justamente esta: a verdadeira tragédia não é morrer sem compreender.


É compreender tudo quando já não existe mais tempo para viver de outro modo.


Por: Atena Cybele e Callera Jarreliss

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