top of page

Quando deixamos de ser úteis - Kafka, Becker e a vergonha de existir

carlospessegatti
25 de set.
6 min de leitura


Há uma pergunta que atravessa silenciosamente a existência humana:

Quem somos quando aquilo que fazemos deixa de existir?


Não quando mudamos de profissão. Não quando trocamos de emprego. Não quando encontramos uma nova atividade.


Mas quando, por alguma razão, já não conseguimos produzir, entregar, sustentar, performar.


Quando o trabalho desaparece.

Quando o corpo falha.

Quando a produtividade cessa.

Quando deixamos de ser necessários.


Foi essa pergunta que Ernest Becker nos ajudou a formular quando investigou a relação entre trabalho, identidade e necessidade humana de significação. Mas Franz Kafka, décadas antes, havia construído uma das imagens mais perturbadoras dessa condição.


Em A Metamorfose, Gregor Samsa acorda transformado em uma criatura monstruosa.


Mas talvez o mais perturbador não seja a transformação do corpo.


É a primeira preocupação de Gregor.


Ele não pergunta:

“O que aconteceu comigo?”


Ele pensa no trabalho.

No atraso.

No chefe.

No trem que perdeu.

Nas consequências de sua ausência.


Antes mesmo de compreender a própria metamorfose, Gregor tenta compreender como justificará o fato de não poder comparecer ao trabalho.


É aí que Kafka se torna assustadoramente contemporâneo.


Porque o verdadeiro horror não começa quando Gregor se transforma em inseto.

Começa quando percebemos que ele continua pensando como trabalhador.


Gregor já estava exausto antes de se tornar aquilo que os outros passam a considerar monstruoso.


Viajava constantemente. Trabalhava para pagar as dívidas da família. Suportava as exigências de um chefe que o tratava como uma peça substituível. Sua existência estava organizada em torno da obrigação.


Ele não vivia exatamente para si.


Ele funcionava.


E talvez essa seja a palavra central para compreender sua tragédia.


Gregor não era apenas um homem que trabalhava.


Ele havia se tornado uma função.


Era o provedor.

Era aquele que sustentava a casa.

Era aquele que resolvia.

Era aquele que entregava.


Sua identidade havia se confundido com sua utilidade.


Por isso sua metamorfose é tão devastadora.


Ela não destrói apenas seu corpo.


Ela interrompe sua função.


E, quando sua função desaparece, começa a desaparecer também o lugar que ocupava entre os outros.


A família precisa reorganizar-se.


A irmã começa a trabalhar.


Os pais também encontram maneiras de sobreviver.


A casa continua.


O mundo continua.


E Gregor começa a perceber algo terrível:

ele pode ser substituído.


Talvez seja essa uma das experiências mais profundas da condição humana.

Não o medo de morrer.


Mas o medo de descobrir que o mundo continuará funcionando perfeitamente sem nós.


Existe uma violência particular em uma sociedade que transforma utilidade em medida de valor.


Enquanto entregamos resultados, somos reconhecidos.

Enquanto produzimos, somos necessários.

Enquanto sustentamos, somos respeitados.

Enquanto funcionamos, somos integrados.


Mas o que acontece quando paramos?


Quando adoecemos?

Quando envelhecemos?

Quando fracassamos?

Quando somos demitidos?

Quando não conseguimos mais acompanhar o ritmo?

Quando simplesmente decidimos parar?


É nesse momento que a pergunta de Becker encontra Kafka.


Quem somos nós quando aquilo que fazia de nós alguém necessário desaparece?


Talvez a pergunta mais profunda não seja sequer dirigida aos outros.


É dirigida a nós mesmos.


Eu ainda consigo reconhecer valor em mim quando não estou produzindo valor para ninguém?


Gregor não precisa ser expulso imediatamente para começar a desaparecer.


Ele próprio se retrai.

Ele se esconde.

Evita ser visto.


Sente vergonha.


Seu corpo tornou-se uma espécie de acusação.


Mas vergonha de quê?


Ele não cometeu um crime.


Não traiu ninguém.

Não abandonou voluntariamente suas responsabilidades.

Não escolheu transformar-se.


Sua culpa é outra.


Ele deixou de funcionar.


E essa é uma forma particularmente moderna de culpa.


A culpa de não render.

A culpa de descansar.

A culpa de não responder.

A culpa de não produzir.

A culpa de não estar disponível.

A culpa de precisar de ajuda.

A culpa de não corresponder.

A culpa de não ser aquilo que os outros esperavam que fôssemos.


A vergonha, então, já não precisa nascer de uma transgressão moral.


Ela pode nascer simplesmente da incapacidade de performar.


É aqui que Kafka ultrapassa a história de Gregor Samsa.


Porque nós também construímos pequenos quartos onde nos escondemos.


Não necessariamente quartos físicos.


São espaços interiores.


Ali nos refugiamos quando acreditamos que fracassamos.

Ali escondemos nossa inadequação.

Ali tentamos evitar o olhar daqueles que poderiam descobrir que já não somos tão produtivos quanto parecíamos.


A sociedade contemporânea sofisticou esse mecanismo.


Hoje carregamos o trabalho conosco.

Ele está no telefone.

No e-mail.

Nas mensagens.

Nas redes sociais.

Nos calendários.

Nas metas.

Nos números.

Nos indicadores.

Nos currículos.

Nas métricas.


Até o descanso pode ser transformado em desempenho.

Até o lazer pode ser otimizado.

Até o corpo pode ser convertido em projeto.

Até a felicidade pode tornar-se uma meta.


E, silenciosamente, aprendemos uma equação perigosa:

produzo, logo existo.


Talvez seja essa a metamorfose que Kafka realmente antecipou.


Não a transformação de um homem em inseto.


Mas a transformação do ser humano em função.


O indivíduo passa a olhar para si mesmo como uma unidade de desempenho.


Pergunta quanto vale.


Quanto entrega.

Quanto produz.

Quanto ganha.

Quantos seguidores possui.

Quantas pessoas alcança.

Quantos resultados apresenta.

Quanto consegue realizar.


E então surge uma consequência terrível:

se o valor depende daquilo que entregamos, qualquer interrupção da entrega ameaça o próprio sentimento de existir.


É por isso que algumas pessoas não conseguem descansar.


Não porque tenham necessariamente algo urgente para fazer.


Mas porque, quando param, encontram uma pergunta que o movimento constante mantinha escondida:


Quem sou eu quando não estou fazendo nada?


Gregor Samsa talvez seja uma das primeiras grandes figuras literárias da modernidade a experimentar esse vazio.


Quando ele deixa de trabalhar, a família precisa aprender a viver sem ele.

Quando deixa de sustentar, torna-se um problema.

Quando deixa de participar da engrenagem doméstica, sua presença começa a parecer inconveniente.


E, pouco a pouco, ele próprio passa a enxergar-se através desse olhar.


Essa talvez seja a parte mais cruel da história.


A violência externa torna-se violência interior.


Não é mais necessário que alguém diga:

“Você não tem valor.”


A própria pessoa começa a pensar:


“Eu não tenho mais valor porque não consigo ser útil.”


É nesse instante que a dominação se completa.


E aqui Kafka encontra uma questão que atravessa a Filosofia da Existência.


O ser humano pode viver de duas maneiras muito diferentes.


Pode viver como alguém que é.


Ou pode viver como alguém que precisa continuamente provar que merece ser.


A primeira condição reconhece a existência como algo que possui dignidade própria.


A segunda transforma a existência em uma espécie de contrato.


Enquanto eu entrego, mereço.

Enquanto eu produzo, pertenço.

Enquanto eu funciono, sou reconhecido.


Quando deixo de entregar, minha legitimidade começa a desaparecer.


O problema é que esse contrato jamais termina.


Porque sempre será possível produzir mais.


Entregar mais.

Alcançar mais.

Ganhar mais.

Atingir mais.


E assim a existência transforma-se em uma corrida sem linha de chegada.


É por isso que a pergunta de Kafka continua tão viva.


Você existe para viver ou vive para funcionar?


Talvez tenhamos confundido essas duas coisas.

Talvez tenhamos construído uma civilização extraordinariamente eficiente para produzir coisas, mas ainda profundamente insegura sobre o valor de quem as produz.

Talvez tenhamos aprendido a medir quase tudo, menos aquilo que realmente importa.


Não conseguimos colocar dignidade em uma planilha.

Não conseguimos calcular o valor de uma amizade.

Não conseguimos estabelecer uma métrica para a presença de alguém.

Não conseguimos transformar cuidado em produtividade.

Não conseguimos quantificar o significado de permanecer ao lado de alguém quando essa pessoa já não pode oferecer nada em troca.


E talvez seja exatamente aí que uma existência humana comece.


A grande pergunta de Gregor não deveria ser:

“O que posso fazer para voltar a ser útil?”


Talvez devesse ser:

“Se eu não puder mais ser útil, ainda tenho direito de existir?”


Kafka não oferece uma resposta reconfortante.


E talvez seja justamente por isso que sua obra permanece tão poderosa.


Ele não nos oferece uma filosofia da consolação.


Ele nos coloca diante do espelho.


E o inseto que enxergamos ali talvez não seja Gregor.


Talvez sejamos nós.


Nós, quando reduzimos nossa própria existência àquilo que conseguimos entregar.

Nós, quando confundimos reconhecimento com valor.

Nós, quando sentimos culpa por descansar.

Nós, quando nos sentimos fracassados porque deixamos de produzir.

Nós, quando envelhecemos e começamos a acreditar que estamos nos tornando descartáveis.


Nós, quando adoecemos e sentimos que estamos ocupando um espaço que já não merecemos.

Nós, quando perdemos o emprego e sentimos que perdemos também uma parte de nossa identidade.

Nós, quando descobrimos que o mundo não precisa de nós tanto quanto imaginávamos.


Becker perguntou:

Quem é você quando o trabalho desaparece?


Kafka parece levar a pergunta um pouco mais longe:

Quem você acredita ser quando já não consegue ser útil?


E talvez exista uma diferença decisiva entre essas duas perguntas.


A primeira procura uma identidade depois do desaparecimento da função.


A segunda investiga o que aconteceu com nossa própria ideia de humanidade quando permitimos que a função se tornasse identidade.


Talvez a verdadeira metamorfose não seja a de Gregor.


Talvez seja a nossa.


A transformação lenta do ser humano em instrumento.


Em recurso.

Em trabalhador.

Em consumidor.

Em perfil.

Em dado.

Em desempenho.

Em resultado.

Em número.


E talvez a tarefa mais radical da existência seja justamente interromper essa metamorfose.


Recusar a ideia de que precisamos justificar continuamente nossa presença no mundo.


Aprender novamente que alguém pode existir sem produzir.


Que alguém pode descansar sem culpa.

Que alguém pode falhar sem perder sua dignidade.

Que alguém pode envelhecer sem tornar-se inútil.

Que alguém pode precisar dos outros sem tornar-se um peso.

Que alguém pode simplesmente ser.


Porque talvez a pergunta mais difícil que Kafka nos deixou não seja sobre a transformação de um homem em inseto.


É esta:

Se amanhã você não pudesse mais produzir absolutamente nada, o que sobraria de você?


E, talvez ainda mais profundamente:

seria suficiente?



Comentários


Site de música

callerajarrelis electronic progressive music

callerajarrelis Electronic  Progressive Music

bottom of page