O Lobo Algorítmico - Capítulo 20 — Aprender a Rir Novamente

Henrique descobriu que havia passado tempo demais tentando compreender a própria vida.
Talvez esse tivesse sido um dos seus maiores enganos.
Durante anos, procurara explicações para tudo.
Por que se sentia daquela maneira.
Por que determinadas músicas o emocionavam.
Por que certas pessoas desapareciam de sua vida.
Por que outras permaneciam.
Por que precisava estar conectado.
Por que se sentia vazio quando estava conectado demais.
Por que desejava ser visto.
Por que, depois de ser visto, desejava desaparecer.
Havia transformado a própria existência em um problema a ser resolvido.
E os algoritmos haviam sido extremamente úteis.
Eles adoravam problemas.
Organizavam.
Classificavam.
Relacionavam.
Comparavam.
Calculavam probabilidades.
Encontravam padrões onde ele sequer imaginava que existissem.
Henrique havia acreditado que, quanto mais dados fornecesse sobre si mesmo, mais próximo chegaria de compreender quem era.
Não percebeu que estava fazendo exatamente o contrário.
Estava substituindo o mistério pela estatística.
Naquela manhã, porém, alguma coisa começou a mudar.
Não foi uma revelação.
Não foi uma descoberta.
Foi uma coisa muito menor.
E, justamente por isso, muito maior.
Henrique estava diante da janela quando viu um homem tentando atravessar a rua com um cachorro.
O cachorro não queria atravessar.
O homem puxava a coleira.
O cachorro resistia.
O homem insistia.
O cachorro sentava.
O homem esperava.
O cachorro olhava para ele com uma expressão que, se fosse humana, provavelmente significaria:
Não.
Henrique observou a cena durante alguns segundos.
O homem tentou novamente.
O cachorro sentou outra vez.
Então Henrique riu.
Não foi um riso intelectual.
Não encontrou nenhuma explicação para ele.
Não houve reflexão.
Não houve interpretação.
Ele simplesmente riu.
E imediatamente percebeu uma coisa estranha.
Não havia pensado em fotografar.
Não havia pensado em filmar.
Não havia pensado em publicar.
Não havia imaginado os comentários.
Não havia pensado em quantas pessoas poderiam achar aquilo engraçado.
Não havia pensado em nada.
Apenas rira.
O acontecimento terminara ali.
Sem registro.
Sem audiência.
Sem dados.
Sem memória digital.
Henrique permaneceu diante da janela.
Talvez fosse isso.
Talvez fosse justamente isso que havia perdido.
A capacidade de viver alguma coisa que não precisasse continuar existindo depois de acontecer.
Durante muito tempo, acreditara que uma experiência só adquiria valor quando podia ser preservada.
Uma fotografia provava que estivera ali.
Uma publicação provava que pensara aquilo.
Um comentário provava que reagira.
Um registro dizia:
isto aconteceu comigo.
Mas agora percebia o absurdo.
Nem tudo precisava provar que havia acontecido.
Algumas coisas podiam simplesmente acontecer.
E desaparecer.
Como o riso.
Como uma música ouvida uma única vez.
Como uma conversa esquecida.
Como uma tarde sem fotografias.
Como um pensamento que passa pela consciência e vai embora sem pedir licença.
Henrique sorriu.
Havia alguma coisa profundamente subversiva nisso.
O mundo havia construído uma enorme máquina para registrar a existência humana.
E ele acabara de descobrir que uma das experiências mais importantes de sua vida podia acontecer sem deixar absolutamente nenhum registro.
Sentou-se.
Pensou nos últimos anos.
Pensou em quanto esforço havia colocado na construção de uma imagem de si mesmo.
Tentara ser interessante.
Tentara ser coerente.
Tentara ser informado.
Tentara ser atual.
Tentara acompanhar o ritmo.
Tentara compreender as novas linguagens.
Tentara não desaparecer.
E, nesse esforço permanente para não desaparecer, havia começado a desaparecer de si mesmo.
A máquina nunca lhe pedira explicitamente que fizesse aquilo.
Esse era o mais assustador.
Ela não precisava pedir.
Bastava oferecer.
Uma pequena recompensa.
Uma notificação.
Uma recomendação.
Uma reação.
Uma lembrança.
Uma nova possibilidade.
Depois outra.
E outra.
Até que a pessoa já não soubesse distinguir aquilo que desejava daquilo que aprendera a desejar.
Henrique levantou-se.
Foi até o computador.
A tela continuava acesa.
Nada havia mudado.
As máquinas continuavam trabalhando.
Os servidores continuavam processando dados.
As redes continuavam conectando milhões de pessoas.
Os algoritmos continuavam aprendendo.
O mundo não havia parado porque Henrique finalmente compreendera alguma coisa.
E isso lhe pareceu engraçado.
Ele riu.
Desta vez, da própria situação.
Tantos anos imaginando que precisava vencer a máquina.
Tantos anos procurando uma saída.
Tantos anos pensando em desligar tudo.
E agora descobria que talvez não precisasse destruir coisa alguma.
Precisava apenas recuperar o direito de não obedecer.
A tecnologia não era o inimigo.
O problema nunca fora a existência da máquina.
O problema começara quando ele lhe entregara uma coisa que deveria ter permanecido exclusivamente sua:
a própria interioridade.
A máquina podia conhecer seus hábitos.
Mas não precisava conhecer suas hesitações.
Podia prever seus comportamentos.
Mas não deveria determinar suas escolhas.
Podia saber o que ele havia feito.
Mas isso não significava saber aquilo que ele poderia vir a fazer.
Porque ainda havia nele alguma coisa que nenhuma base de dados conseguiria capturar completamente.
A possibilidade de mudar.
De contradizer-se.
De abandonar uma certeza.
De desejar aquilo que nunca desejara antes.
De escolher o caminho errado.
De fazer alguma coisa inútil.
De permanecer em silêncio.
De rir.
Principalmente de rir.
Henrique compreendeu então que o riso possuía uma estranha relação com a liberdade.
O riso não precisava ser produtivo.
Não precisava melhorar ninguém.
Não precisava ensinar nada.
Não precisava gerar engajamento.
Não precisava ser compartilhado.
Às vezes, o riso simplesmente acontecia.
E talvez essa fosse uma das últimas formas de espontaneidade que ainda restavam ao ser humano.
Ele lembrou de uma frase que ouvira certa vez:
A vida é importante demais para ser levada a sério.
Durante muito tempo, Henrique teria considerado aquela frase uma espécie de brincadeira.
Agora começava a entendê-la.
Não significava que a vida fosse insignificante.
Era justamente o contrário.
A vida era importante demais para ser reduzida àquilo que o mundo esperava dela.
Importante demais para ser transformada permanentemente em desempenho.
Importante demais para precisar de uma audiência.
Importante demais para ser convertida em conteúdo.
Importante demais para ser vivida como uma sucessão de decisões otimizadas.
Talvez levar a vida a sério demais fosse acreditar que cada gesto precisava ter uma explicação.
Que cada escolha precisava construir uma identidade.
Que cada experiência precisava produzir alguma coisa.
Que cada instante precisava ser aproveitado.
Henrique começou a perceber que havia uma espécie de liberdade escondida no desperdício.
Uma tarde desperdiçada.
Uma conversa sem finalidade.
Uma caminhada sem destino.
Uma música ouvida apenas porque sim.
Um livro abandonado pela metade.
Uma ideia que não servia para nada.
Um riso sem testemunhas.
O mundo podia chamar aquilo de desperdício.
Henrique começava a chamar de vida.
Foi então que percebeu que não queria mais lutar contra a tecnologia.
Também não queria fugir dela.
Não queria voltar ao passado.
Não queria fingir que as redes não existiam.
Não queria destruir o computador.
Queria apenas voltar a habitar o espaço que existia entre o estímulo e a resposta.
Aquele pequeno intervalo em que uma pessoa ainda pode perguntar:
Eu realmente quero isso?
E, talvez mais importante:
E se eu não quiser?
Henrique desligou o monitor.
Não o computador.
Apenas o monitor.
A sala ficou silenciosa.
Ele permaneceu ali durante alguns segundos.
Depois foi até a cozinha.
Preparou café.
Encontrou uma velha caneca no fundo do armário.
Não lembrava por que ainda a guardava.
Também não tentou descobrir.
Tomou o café junto à janela.
Lá fora, o homem e o cachorro já haviam desaparecido.
Henrique imaginou que o cachorro finalmente tivesse decidido caminhar.
Ou talvez tivesse vencido.
Riu novamente.
E dessa vez compreendeu que não precisava saber.
Durante muito tempo, pensara que liberdade era saber.
Agora descobria que liberdade também podia ser não precisar saber.
Não explicar.
Não justificar.
Não registrar.
Não transformar tudo em alguma coisa.
Apenas estar.
Apenas viver.
O mundo continuaria funcionando sem sua participação constante.
As máquinas continuariam calculando.
Os algoritmos continuariam aprendendo.
As redes continuariam falando.
E Henrique, pela primeira vez em muitos anos, não sentiu necessidade de responder.
Terminou o café.
Levantou-se.
Abriu a porta.
E saiu.
Não sabia para onde iria.
Não sabia quanto tempo ficaria fora.
Não sabia o que faria naquele dia.
E aquela ignorância não lhe pareceu uma falha.
Pareceu-lhe uma possibilidade.
Henrique caminhou pela rua.
Sem pressa.
Sem destino.
Sem fotografia.
Sem postagem.
Sem testemunhas.
Em algum lugar, uma máquina provavelmente registrava sua passagem.
Ele não se importou.
Havia coisas que podiam ser registradas sem serem capturadas.
E havia coisas que só permaneciam livres enquanto ninguém tentasse capturá-las.
Henrique caminhou mais um pouco.
Então ouviu alguma coisa.
Não sabia exatamente o quê.
Talvez uma criança.
Talvez um cachorro.
Talvez alguém contando uma piada atrás de uma janela.
Parou.
E começou a rir.
Não porque estivesse feliz.
Não porque tudo tivesse se resolvido.
Não porque o mundo tivesse se tornado melhor.
Riu porque, finalmente, não precisava de uma razão.
E continuou andando.
Epílogo — O Caderno Encontrado
O caderno foi encontrado meses depois.
Estava sobre uma mesa, entre alguns livros antigos e uma camada fina de poeira.
Ninguém sabia exatamente quando Henrique o havia deixado ali.
Não havia data na última página.
Não havia explicação.
A maior parte das anotações era fragmentária. Algumas páginas continham frases interrompidas. Outras, desenhos, palavras soltas, pequenos diagramas que pareciam tentar representar coisas para as quais ainda não existiam nomes.
Havia também algumas páginas inteiramente em branco.
Talvez fossem as mais importantes.
O computador de Henrique permanecia ligado.
Seu perfil continuava ativo.
As mensagens continuavam chegando.
Algumas pessoas ainda comentavam suas antigas publicações. Outras compartilhavam textos que ele havia escrito anos antes.
O sistema continuava sugerindo novos conteúdos aos seus seguidores.
Continuava aprendendo.
Continuava armazenando.
Continuava esperando.
Ninguém sabia para onde Henrique havia ido.
Alguns disseram que ele havia viajado.
Outros acreditaram que tivesse simplesmente desaparecido.
Houve quem procurasse seus rastros nas redes, nos arquivos, nos bancos de dados, nos lugares onde costumava estar.
Não encontraram nada.
Ou encontraram coisas demais.
Fotografias antigas.
Comentários.
Registros.
Preferências.
Históricos.
Fragmentos de uma vida inteira cuidadosamente preservada.
Mas não Henrique.
Na última página do caderno havia apenas uma frase.
Não era uma conclusão.
Não era uma explicação.
Parecia mais uma anotação feita às pressas, como se Henrique tivesse escrito aquilo pouco antes de fechar o caderno.
A letra terminava inclinada para cima.
Como se a frase ainda não tivesse terminado.
“Talvez a liberdade seja simplesmente aquilo que começa quando ninguém mais está esperando que você seja alguma coisa.”
Abaixo dela, havia um espaço em branco.
E, depois, quase no rodapé da página, uma pequena marca de lápis.
Parecia um sorriso.
Ninguém soube dizer se era um desenho.
Ou apenas uma palavra que Henrique decidira não escrever.



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