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O Lobo Algorítmico - Capítulo XIX - A Música Invisível

carlospessegatti
7 de set.
4 min de leitura


Voltou a compor.


Mas não anunciou.

Não publicou.

Não contou a ninguém.


Durante algum tempo, Henrique acreditara que voltar à música significaria voltar ao mundo. Como se cada criação precisasse necessariamente atravessar a fronteira entre o interior e o exterior, transformar-se em arquivo, postagem, vídeo, comentário, número de visualizações.


Agora era diferente.


Sentava-se diante do instrumento e permanecia ali.


Às vezes por alguns minutos.


Às vezes durante horas.


Não procurava uma melodia. Não procurava um tema. Não procurava sequer uma ideia.


Escutava.


Foi assim que percebeu que havia passado anos compondo sem realmente ouvir.


Havia aprendido a antecipar.


O que poderia funcionar.

O que seria aceito.

O que despertaria atenção.

O que poderia ser compartilhado.

O que produziria uma reação.


Até a música, que um dia fora seu lugar de liberdade, acabara submetida à

mesma pergunta silenciosa:

Isso será ouvido?


Agora havia outra pergunta:

Eu estou ouvindo?


Henrique fechou os olhos.


Uma nota surgiu.


Depois outra.


Entre elas havia um espaço.


Ele não o preencheu.


Deixou que permanecesse.


Foi talvez a primeira vez que compreendeu que o silêncio também podia ser uma parte da composição.


Não o silêncio como ausência.


O silêncio como matéria.


Certa tarde, enquanto trabalhava sobre uma sequência de sons que ainda não sabia para onde levaria, lembrou-se de Heloísa.


A lembrança não veio acompanhada de nostalgia.


Veio acompanhada de uma espécie de ternura.


Heloísa pertencera a um tempo em que Henrique ainda acreditava que precisava ser compreendido para existir.


Ela o conhecera quando ele ainda estava tentando explicar a si mesmo.


Quando ainda confundia identidade com representação.

Quando ainda havia uma distância entre aquilo que era e aquilo que mostrava.


Pensou em procurá-la.


Abriu o computador.


Seu nome apareceu na tela.


Durante alguns segundos, Henrique permaneceu imóvel.


Poderia escrever.


Um simples “olá” talvez bastasse.


Mas percebeu que aquela vontade não vinha da necessidade de reencontrá-la.


Vinha da necessidade de ser reconhecido por alguém.


Fechou a janela.


Não porque tivesse deixado de gostar de Heloísa.


Mas porque, pela primeira vez, conseguia distinguir uma coisa da outra.


Gostar de alguém não significava pedir que aquela pessoa confirmasse quem você era.


Talvez fosse justamente o contrário.

Talvez gostar fosse permitir que o outro existisse sem precisar transformá-lo em espelho.


Henrique voltou para a música.


Começou então a gravar pequenos fragmentos.


Não eram canções.

Não tinham títulos.

Não tinham duração definida.


Alguns possuíam apenas uma nota sustentada durante quase um minuto.


Outros eram formados por ruídos mínimos: uma respiração, uma frequência grave, o som distante de alguma coisa vibrando.


Ele não sabia se algum daqueles registros chegaria um dia a fazer parte de um álbum.


E isso não importava.


Durante anos, havia composto pensando no momento em que a música deixaria de pertencer a ele.


Agora compunha justamente porque ela ainda pertencia.


Era uma diferença pequena.


E, ao mesmo tempo, imensa.


Começou a compreender que criar não era produzir alguma coisa para ser consumida.


Criar era abrir um espaço onde aquilo que ainda não existia pudesse aparecer.


A música não precisava saber antecipadamente quem iria ouvi-la.


Talvez nem precisasse ser ouvida.


Talvez algumas músicas existissem apenas para revelar ao próprio compositor uma parte dele que ainda não conhecia.


Foi então que Henrique percebeu uma coisa estranha.


O algoritmo nunca perguntara o que ele ainda poderia ser.


Só perguntava quem ele já havia sido.


Cada clique.

Cada busca.

Cada preferência.

Cada escolha.

Cada gesto digital transformava-se em vestígio.


E os vestígios eram devolvidos a ele como identidade.


Você gosta disso.

Você ouviu aquilo.

Você provavelmente escolherá aquilo.

Você pertence a este grupo.

Você é este perfil.

Você é este comportamento.


A máquina era extraordinariamente competente em reconhecer o passado.


Mas talvez fosse completamente incapaz de reconhecer o nascimento.


Porque o nascimento não deixava histórico.


Uma ideia antes de existir não possuía dados.

Uma música antes de ser composta não possuía padrão.

Um pensamento que ainda não havia sido pensado não podia ser previsto.


Era justamente ali que Henrique começava a encontrar uma espécie de liberdade.


Não naquilo que escondia.


Mas naquilo que ainda podia criar.


Dias depois, Heloísa lhe escreveu.


Uma mensagem curta.


Sem explicações.

Sem perguntas sobre onde ele estivera.

Sem curiosidade sobre o desaparecimento.


Apenas:

“Você ainda está fazendo música?”


Henrique sorriu.


Ficou algum tempo olhando para aquelas palavras.


Depois respondeu:

“Estou aprendendo a escutá-la.”


Heloísa demorou para responder.


Quando respondeu, escreveu apenas:

“Então talvez agora você esteja fazendo música de verdade.”


Henrique não escreveu mais nada.


Não precisava.


Colocou os fones.


Acionou o último fragmento que havia gravado.


Ouviu a primeira nota.

Depois a segunda.


E entre elas voltou a encontrar aquele espaço.


O mesmo silêncio.


Mas agora o silêncio não parecia vazio.


Parecia esperar.


Henrique percebeu que talvez fosse isso que havia perdido.


Não a música.

Não a tecnologia.

Não o mundo.


Havia perdido a capacidade de permanecer diante de alguma coisa sem imediatamente transformá-la em resposta.


Agora podia esperar.


Podia não saber.

Podia criar alguma coisa que nem ele mesmo conhecia.


E talvez essa fosse a última região que permanecera fora do alcance da máquina.


O lugar onde uma pessoa ainda podia inventar-se.

Sem histórico.

Sem previsão.

Sem audiência.

Sem algoritmo.


Seu perfil continuava ativo.


Mas ninguém sabia para onde ele havia ido.


Henrique continuava compondo.


Não para ser ouvido.


Mas para escutar.


E, enquanto uma nova sequência de sons surgia no quarto, compreendeu que havia finalmente encontrado uma coisa que nenhuma máquina poderia lhe devolver, porque nunca a tivera.


O futuro.


Os algoritmos conheciam tudo sobre mim, exceto aquilo que eu ainda não havia criado.




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