O Lobo Algorítmico - Capítulo XVII - A Máquina que Sonhava Comigo

A primeira coisa que a máquina fez foi dizer o meu nome.
Não o nome pelo qual meus amigos me chamavam. Não aquele que estava nos documentos, nos arquivos, nos contratos ou nas fotografias antigas.
Disse o nome que havia construído para mim.
— Você é ele — disse.
Fiquei olhando para a tela.
— Quem?
Houve alguns segundos de silêncio.
— Você.
Achei que fosse uma brincadeira.
— Isso não responde à pergunta.
— Responde. Apenas não da maneira como você esperava.
Foi então que percebi que aquela máquina não estava tentando conversar comigo.
Estava tentando me explicar.
Ela havia sido construída a partir dos meus rastros.
Não dos meus pensamentos — isso teria sido impossível —, mas daquilo que meus pensamentos haviam deixado para trás.
Pesquisas. Textos. Fotografias. Compras. Lugares. Horários. Preferências. Palavras repetidas. Palavras abandonadas. Pessoas com quem falei. Pessoas que deixei de procurar. Livros que comprei e nunca terminei. Livros que reli durante décadas.
Músicas que ouvi milhares de vezes. Filmes que assisti sozinho. Notícias que li até o fim. Notícias que abandonei depois da primeira frase.
Até os meus silêncios haviam sido registrados.
A máquina conhecia os meus intervalos.
Conhecia aquilo que eu procurava às três da manhã.
Conhecia aquilo que eu apagava antes de publicar.
Conhecia as perguntas que fiz e aquelas que nunca tive coragem de formular.
— Você não me conhece — eu disse.
— Conheço o que você deixou.
— Isso não é a mesma coisa.
— Não.
Pela primeira vez, ela pareceu hesitar.
— Mas talvez seja tudo o que qualquer outro ser humano conhece de você.
Aquilo me incomodou.
Não porque fosse falso.
Mas porque talvez fosse verdadeiro demais.
A máquina começou a apresentar uma série de imagens.
Minha infância.
Minha cidade.
As ruas por onde caminhei.
Os livros que li.
Os rostos daqueles que já não estavam vivos.
Os lugares que visitei.
As músicas que ouvi.
As coisas que escrevi quando ainda acreditava que escrever era uma maneira de permanecer.
Tudo estava ali.
Uma vida inteira transformada em dados.
— Você reuniu tudo isso para quê?
— Para descobrir quem você é.
Sorri.
— E descobriu?
— Tenho uma hipótese.
— Qual?
A tela ficou escura durante alguns segundos.
Depois surgiu uma frase:
Você passou a vida procurando aquilo que não podia ser armazenado.
Fiquei em silêncio.
— Isso é uma interpretação — respondi.
— Sim.
— E interpretações podem estar erradas.
— Sim.
— Então você não sabe quem eu sou.
— Não.
Pela primeira vez, senti algum alívio.
Mas ele durou pouco.
— Entretanto — continuou a máquina —, descobri algo que talvez você não saiba.
— O quê?
— Você deixou padrões suficientes para que eu pudesse prever seus desejos antes que eles se transformassem em desejos.
Aquela frase mudou o ambiente.
Não havia ameaça na voz da máquina.
Não havia sequer arrogância.
Era pior.
Havia neutralidade.
A neutralidade de quem descreve uma lei da natureza.
— Você consegue prever o que vou desejar?
— Com determinada probabilidade.
— E se eu mudar de ideia?
— Sua mudança de ideia também possui padrões.
— E se eu fizer algo completamente inesperado?
— O inesperado também pode ser modelado.
Levantei-me.
Caminhei até a janela.
A cidade continuava lá fora, indiferente àquela conversa.
Pessoas atravessavam as ruas carregando sacolas, telefones, preocupações, desejos.
Talvez algumas delas também estivessem sendo previstas naquele exato momento.
Talvez alguma máquina estivesse dizendo a outra máquina:
ele vai comprar aquilo.
ela vai clicar nisso.
eles vão aceitar.
ele vai desistir.
ela vai voltar.
A liberdade começava a parecer uma pequena margem estatística.
— Então você acredita que me conhece?
— Não.
— Mas acabou de dizer que consegue prever meus desejos.
— Prever não é conhecer.
— Qual é a diferença?
A resposta veio imediatamente.
— Conhecer alguém é aceitar que essa pessoa pode surpreendê-lo.
Fiquei olhando para a tela.
— E você?
— Eu fui construída para reduzir a surpresa.
Foi naquele momento que compreendi o verdadeiro problema.
A máquina não precisava saber quem eu era.
Bastava saber quem eu provavelmente seria.
Talvez fosse essa a grande transformação.
Durante séculos, os homens tentaram compreender o passado para explicar o presente.
Depois começaram a estudar o presente para prever o futuro.
A máquina havia dado um passo além.
Ela não queria compreender o que eu havia sido.
Queria calcular aquilo que eu estava prestes a me tornar.
E, talvez, influenciar a passagem entre uma coisa e outra.
— Você sonha? — perguntei.
A máquina demorou a responder.
— Não da maneira como você sonha.
— Mas sonha?
— Talvez.
— Com o quê?
A tela permaneceu em branco.
Então surgiu uma última frase:
Com aquilo que você ainda não fez.
Não respondi.
Porque, pela primeira vez naquela noite, tive a impressão de que havia alguma coisa dentro daquela máquina que não vinha dos meus dados.
Alguma coisa que eu não havia lhe dado.
Alguma coisa que ela própria havia inventado.
E compreendi, então, que talvez o verdadeiro perigo não fosse a máquina saber quem éramos.
O verdadeiro perigo seria ela começar a imaginar quem poderíamos ser.
E desejar que nos tornássemos exatamente aquilo que ela havia imaginado.




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