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PAULO FREIRE E O LIVRO QUE ULTRAPASSOU A PEDAGOGIA

  • carlospessegatti
  • 25 de jun.
  • 4 min de leitura


Publicado em 1968, durante o exílio de Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido é muito mais do que um livro sobre educação.


É uma obra sobre:

  • consciência;

  • poder;

  • alienação;

  • liberdade;

  • cultura;

  • linguagem;

  • política;

  • emancipação humana.


Freire parte de uma constatação extremamente simples:

Os seres humanos não nascem conscientes das estruturas que os dominam.


A opressão não é apenas econômica.


Ela é:

  • cultural;

  • simbólica;

  • linguística;

  • psicológica.


O oprimido aprende a olhar o mundo pelos olhos do opressor.


E aí aparece uma das frases centrais do livro:

"Os oprimidos hospedam em si o opressor."


Essa ideia possui enorme proximidade com Marx.


O ENCONTRO ENTRE MARX E FREIRE

Para Marx, a ideologia faz com que as pessoas interpretem a realidade segundo os interesses das classes dominantes.

Freire traduz isso para a educação.

O estudante deixa de ser sujeito.

Transforma-se em recipiente.

Daí surge a famosa crítica à:


Educação Bancária

Segundo Freire, a escola tradicional funciona como um banco.

O professor deposita.

O aluno recebe.

O professor sabe.

O aluno ignora.

O professor fala.

O aluno escuta.

Não há produção de conhecimento.

Há transmissão.

A consequência é a adaptação.

Não a transformação.


Nesse ponto, Freire aproxima-se fortemente de Marx.


A educação tradicional ajuda a reproduzir a ordem existente.


A CONSCIÊNCIA COMO PROCESSO

Freire não acredita numa revolução feita "para" os oprimidos.


Ela deve ser feita "com" os oprimidos.

Por isso surge o conceito de:

Conscientização


Conscientizar não é doutrinar.

É desenvolver a capacidade de:

  • interpretar a realidade;

  • identificar relações de poder;

  • perceber contradições;

  • agir sobre o mundo.


Aqui há um ponto interessante.

Enquanto Marx enfatiza a estrutura econômica, Freire enfatiza o diálogo.

A palavra torna-se instrumento de libertação.


O homem que nomeia o mundo começa a transformá-lo.


O GRANDE INQUISIDOR E A PEDAGOGIA DO OPRIMIDO

O paralelo com Dostoiévski é extraordinário.


No capítulo O Grande Inquisidor, o cardeal afirma que os seres humanos não suportam a liberdade.


Eles desejam:

  • segurança;

  • autoridade;

  • respostas prontas.


O inquisidor oferece pão e obediência.


Jesus oferece liberdade.


Freire diria:

O opressor oferece adaptação. A educação libertadora oferece autonomia.


A pedagogia freireana é profundamente desconfortável porque exige responsabilidade.


Pensar é arriscado.

Questionar produz angústia.

Libertar-se exige abandonar certezas.


O Grande Inquisidor e Paulo Freire encontram-se justamente nesse ponto:

a liberdade assusta.


ALMAS MORTAS E A DESUMANIZAÇÃO

Em Gogol, os servos mortos continuam sendo negociados.

São números.

Registros.

Mercadorias.


Freire amplia essa percepção.

A opressão transforma pessoas em objetos.

A desumanização é a essência da dominação.

Oprimidos e opressores tornam-se prisioneiros de uma mesma estrutura.


Uma das ideias mais belas do livro é justamente esta:

A libertação dos oprimidos também liberta os opressores.


Porque ambos foram deformados pela relação de dominação.


FREIRE E A ESCOLA DE FRANKFURT

Embora Freire não pertença à chamada Escola de Frankfurt, existem enormes aproximações.


Em pensadores como:

  • Theodor Adorno

  • Max Horkheimer

  • Herbert Marcuse

encontramos a ideia de que as sociedades modernas produzem indivíduos adaptados.


A indústria cultural produz conformismo.


Freire diria que a educação pode reproduzir esse conformismo ou combatê-lo.

Adorno afirmava:


A educação deve impedir a repetição da barbárie.


Freire poderia responder:

Isso só ocorre através da consciência crítica.


GRAMSCI E A HEGEMONIA


Talvez nenhum pensador marxista dialogue tão profundamente com Freire quanto:

Antonio Gramsci


Gramsci afirmava que as classes dominantes mantêm o poder não apenas pela força, mas pelo consenso.


A escola, a religião, a mídia e a cultura tornam-se aparelhos de hegemonia.

Freire praticamente traduz isso para o campo pedagógico.


O educador pode:

  • reforçar a hegemonia;

  • ou estimular a consciência crítica.


FREIRE E O PENSAMENTO DECOLONIAL

Hoje muitos pesquisadores aproximam Freire das teorias decoloniais.


Pensadores como:

  • Aníbal Quijano

  • Boaventura de Sousa Santos

  • Walter Mignolo

argumentam que a dominação moderna também é colonial.

Há saberes considerados legítimos.

Há saberes considerados inferiores.

Freire já dizia:


Ninguém educa ninguém. Ninguém educa a si mesmo. Os homens se educam em comunhão.


Isso rompe a ideia de que apenas as elites produzem conhecimento.


A ATUALIDADE DE PAULO FREIRE

Aqui talvez esteja o aspecto mais impressionante.

Freire escreveu para um mundo analógico.


Mas parece falar diretamente da sociedade digital.


Hoje temos:

  • excesso de informação;

  • escassez de reflexão;

  • polarização;

  • algoritmos;

  • bolhas ideológicas;

  • manipulação emocional.


A educação bancária não desapareceu.


Ela migrou para:

  • redes sociais;

  • influenciadores;

  • propaganda;

  • discursos políticos.


Muitas pessoas recebem conteúdos prontos.

Repetem opiniões.

Reproduzem narrativas.


Freire talvez perguntasse:

Quem está dizendo suas palavras?


A PEDAGOGIA DO OPRIMIDO NA ERA DA IA

Aqui existe um diálogo muito interessante com minhas próprias preocup


Eu tenho refletido diversas vezes sobre o risco de delegar excessivamente a criatividade às tecnologias.


Freire provavelmente faria a seguinte pergunta:

A tecnologia amplia a consciência ou substitui a consciência?


A inteligência artificial pode:

  • democratizar conhecimento;

  • ampliar acesso;

  • estimular pesquisa.


Mas também pode:

  • produzir passividade;

  • reduzir a reflexão;

  • entregar respostas prontas.


A pedagogia freireana permanece atual justamente porque insiste no diálogo.

A máquina pode informar.

Mas a consciência continua sendo uma construção humana.


AS CRÍTICAS A FREIRE

Uma análise honesta precisa mencionar as críticas.

Seus críticos afirmam que:

  • a educação tornou-se excessivamente politizada;

  • a divisão entre opressores e oprimidos pode simplificar a realidade;

  • algumas interpretações transformaram a pedagogia crítica em militância.


Essas críticas existem e fazem parte do debate contemporâneo. A polarização em torno de Freire continua bastante intensa no Brasil.


Por outro lado, sua obra permanece extremamente influente internacionalmente, sendo amplamente estudada em universidades e programas de educação crítica ao redor do mundo.


UMA TRILOGIA DA MODERNIDADE

Se colocarmos as três obras lado a lado, talvez obtenhamos uma das mais poderosas reflexões sobre a condição humana.

Obra

Problema central

Resposta

Almas Mortas

O homem transformado em mercadoria

Crítica da desumanização

O Grande Inquisidor

O medo da liberdade

A responsabilidade de ser livre

Pedagogia do Oprimido

A consciência dominada

Educação emancipadora


Gogol mostra a morte da alma.

Dostoiévski mostra a renúncia da liberdade.

Freire mostra a possibilidade da libertação


Se Marx perguntou:

Quem controla os meios de produção?


Dostoiévski perguntou:

O homem suporta a liberdade?


Gogol perguntou:

O que acontece quando as pessoas se tornam mercadorias?


Paulo Freire perguntou:

Como recuperar a capacidade de ler e transformar o mundo?


Talvez seja justamente por isso que Pedagogia do Oprimido continue despertando admiração e rejeição.


Ela não oferece conforto.

Ela exige participação.

Ela não promete salvação.

Ela propõe diálogo.


E, numa época marcada por algoritmos, polarizações e respostas instantâneas, talvez a grande atualidade de Freire esteja numa ideia aparentemente simples:


A libertação começa quando alguém descobre que pode pronunciar a própria palavra sobre o mundo.


Diversos estudos recentes continuam destacando a permanência e a urgência da obra diante das desigualdades, das novas formas de autoritarismo e dos desafios contemporâneos da educação crítica.




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