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Quando a extrema-direita sonha em transformar o Estado em uma empresa

  • carlospessegatti
  • há 2 dias
  • 14 min de leitura


Curtis Yarvin, pensador neorreacionário americano, associado à defesa de uma monarquia tecnocrática e de um Estado administrado como uma corporação.



Há personagens que parecem sair diretamente das margens da história.


Durante algum tempo, ninguém os leva muito a sério.


Escrevem em blogs obscuros.

Frequentam pequenos círculos.

Provocam.

Ironizam.


Cultivam deliberadamente uma estética de marginalidade.


Até que, lentamente, suas ideias começam a atravessar as paredes do subterrâneo cultural onde nasceram e chegam aos lugares onde decisões reais são tomadas.


Curtis Yarvin é um desses personagens.


Durante anos, ele foi conhecido principalmente pelo pseudônimo Mencius Moldbug, sob o qual publicou textos extremamente extensos contra a democracia liberal e contra aquilo que considera a hegemonia cultural do progressismo.


Hoje, porém, seu nome circula em ambientes muito diferentes daqueles em que nasceu.


Seu pensamento é discutido por setores da nova direita americana, por integrantes do universo tecnológico e por figuras próximas ao poder político de Washington. J. D. Vance já citou Yarvin nominalmente. Peter Thiel e Marc Andreessen pertencem ao ecossistema tecnológico que ajudou a dar circulação às suas ideias. E a imprensa internacional passou a tratá-lo como uma das figuras intelectuais mais significativas da chamada neorreação ou Dark Enlightenment.


A questão, portanto, já não é perguntar se Curtis Yarvin é excêntrico.


Ele é.


A questão é outra:

O que acontece quando ideias antidemocráticas deixam de ser apenas ideias de uma subcultura da internet e começam a encontrar abrigo entre pessoas que controlam capital, tecnologia e poder político?


É essa pergunta que torna Yarvin relevante.


E potencialmente perigoso.


1. Quem é Curtis Yarvin?


Yarvin é um programador e empreendedor de tecnologia americano que construiu sua reputação política principalmente através da escrita na internet.


Entre 2007 e 2014, publicou o blog Unqualified Reservations, utilizando o pseudônimo Mencius Moldbug.


Foi nesse período que desenvolveu os fundamentos daquilo que posteriormente seria chamado de neorreacionarismo.


Sua crítica não é simplesmente dirigida a governos específicos.


Ela atinge a própria democracia liberal.


Para Yarvin, o sistema democrático contemporâneo seria uma estrutura ineficiente, capturada por burocracias, universidades, meios de comunicação e instituições que formariam aquilo que ele chamou de “The Cathedral”, uma espécie de complexo ideológico responsável por reproduzir o consenso progressista.


O problema, em sua visão, não seria apenas quem ocupa o governo.


Seria o próprio sistema.


A solução também seria radical.


Não reformar a democracia.


Substituí-la.


A proposta de Yarvin aproxima o Estado de uma empresa.

O país deveria possuir uma autoridade soberana concentrada, semelhante a um CEO.


Em formulações anteriores de seu pensamento, o governante teria poderes muito mais próximos aos de um proprietário ou executivo-chefe do que aos de um presidente limitado por instituições democráticas.


A democracia deixaria de ser o princípio organizador da sociedade.


A eficiência passaria a ocupar esse lugar.


Essa é uma mudança gigantesca.


2. O Estado como empresa


Talvez a ideia mais importante para compreender Yarvin seja esta:

e se o Estado fosse administrado como uma empresa?

À primeira vista, parece uma pergunta administrativa.


Como reduzir desperdícios?

Como eliminar burocracia?

Como aumentar eficiência?

Como acelerar decisões?


Mas existe uma consequência política muito mais profunda.


Uma empresa possui proprietários.


Possui administradores.

Possui trabalhadores.

E possui clientes.


Uma democracia possui outra lógica.


O cidadão não é cliente.


Ele é, em princípio, sujeito político.


Possui direitos.

Participa da formação da vontade coletiva.

Pode contestar o poder.

Pode votar.

Pode organizar-se.

Pode protestar.

Pode substituir governantes.


Na lógica empresarial radicalizada, entretanto, a relação muda.


O Estado deixa de ser uma instituição política fundada na soberania popular e passa a ser concebido como uma estrutura de gestão.


O governante torna-se administrador.

A população torna-se população administrada.

A eficiência passa a justificar a concentração de poder.


E aqui encontramos algo que merece enorme atenção no século XXI:

a transformação da política em administração.


Não precisamos mais perguntar:

“Quem deve governar?”


Passamos a perguntar:

“Quem é mais eficiente para governar?”


Parece uma diferença pequena.


Não é.


É uma ruptura com a própria ideia de democracia.


3. A monarquia do CEO


É justamente aqui que Yarvin se distancia do simples tecnolibertarianismo.


Ele não quer apenas menos Estado.

Ele imagina uma forma diferente de soberania.


Uma soberania concentrada.


Em algumas de suas formulações, o país poderia ser organizado como uma corporação cujo governante funcionaria como um CEO soberano.


A analogia empresarial não é acidental.


Uma empresa não precisa realizar eleições para cada decisão.


O CEO decide.


Os subordinados executam.


Se a empresa fracassa, o CEO pode ser substituído pelos proprietários.

Yarvin utiliza essa lógica para pensar a política.


É uma concepção extremamente sedutora para determinados setores da elite tecnológica porque parece eliminar aquilo que eles frequentemente percebem como o maior problema da política democrática:

a lentidão.


Parlamentos discutem.

Tribunais interferem.

Burocracias resistem.

Eleitores discordam.

Sindicatos pressionam.

Movimentos sociais protestam.

Imprensa investiga.

Instituições entram em conflito.


A democracia é, por natureza, cheia de atritos.


Para o pensamento tecnocrático radical, esses atritos podem aparecer simplesmente como ineficiência.


Mas existe uma diferença fundamental:

o que para a democracia é conflito político, para a empresa pode ser apenas problema de gestão.


Essa distinção é decisiva.


4. A curiosa aliança entre libertarianismo e autoritarismo


Aqui surge um dos paradoxos mais interessantes da nova direita tecnológica.


Durante décadas, o imaginário libertário americano esteve associado à defesa do indivíduo contra o Estado.


Menos governo.

Menos impostos.

Menos regulação.

Mais liberdade econômica.


Entretanto, em determinados setores do tecnolibertarianismo contemporâneo, essa lógica começou a produzir uma conclusão inesperada:

se o Estado é inevitável, então talvez seja melhor colocá-lo nas mãos de alguém extremamente eficiente.


É nesse ponto que o libertarianismo pode encontrar o autoritarismo.


A sociedade imaginada por Yarvin não é simplesmente uma ditadura tradicional.


Ela é uma espécie de autoritarismo empresarial tecnologicamente administrado.


O soberano não precisa ser um rei medieval.


Pode ser um fundador.

Um empreendedor.

Um executivo.

Um engenheiro.

Alguém capaz de “consertar o sistema”.


Essa imagem possui enorme força simbólica no Vale do Silício.


Afinal, o imaginário tecnológico contemporâneo é povoado por histórias de fundadores que desafiam instituições antigas e constroem sistemas completamente novos.


Por que não aplicar a mesma lógica ao Estado?


Essa é precisamente a pergunta perigosa.


5. Peter Thiel e o nascimento de uma ponte


Curtis Yarvin poderia ter permanecido uma figura marginal.


Mas encontrou algo que muitos pensadores radicais nunca encontram:

acesso ao capital.


Peter Thiel, cofundador do PayPal e uma das figuras mais influentes do capitalismo tecnológico americano, entrou em contato com o universo intelectual de Yarvin.


A relação tornou-se especialmente relevante porque Thiel não é apenas um investidor.


Ele possui uma influência extraordinária sobre uma geração da nova direita americana.


J. D. Vance esteve ligado ao universo de Thiel e recebeu dele apoio político significativo. Yarvin, por sua vez, tornou-se uma referência intelectual para setores desse mesmo ambiente.


A imprensa americana vem documentando essa circulação há anos. A Vanity Fair, por exemplo, descreveu Thiel como uma espécie de patrono de uma nova constelação intelectual da direita tecnológica e identificou Yarvin como um dos principais formuladores de suas ideias.


O New Yorker também documentou a relação de Yarvin com o ecossistema de Thiel e Andreessen Horowitz, incluindo investimentos na empresa de software fundada por Yarvin.


Isso é muito mais significativo do que uma simples amizade.


Porque ideias precisam de infraestrutura para adquirir poder.


Precisam de dinheiro.

Precisam de redes.

Precisam de meios de comunicação.

Precisam de plataformas.

Precisam de políticos.

Precisam de pessoas dispostas a transformar conceitos em instituições.


6. J. D. Vance e a passagem da teoria para a política


Talvez o caso mais evidente seja J. D. Vance.


Em 2021, antes de chegar à vice-presidência dos Estados Unidos, Vance citou Yarvin ao defender a ideia de demitir em massa funcionários públicos e substituí-los por pessoas alinhadas ao governo.


O tema não ficou apenas no campo abstrato.


A proposta de Yarvin conhecida pela sigla RAGE — “Retire All Government Employees” tornou-se parte importante do vocabulário associado à ofensiva contra a burocracia federal.


Posteriormente, suas ideias foram relacionadas ao projeto de redução radical da máquina pública conhecido como DOGE, embora o próprio Yarvin tenha criticado a maneira como DOGE foi executado e nunca tenha sido formalmente integrante do projeto.


O detalhe é fundamental.


Não estamos dizendo que:

Yarvin criou DOGE.

Não criou.

Nem que:

J. D. Vance simplesmente executa as ordens de Yarvin.


Isso seria uma simplificação.


O que podemos afirmar é algo mais preciso:

há circulação documentada de ideias entre esses ambientes.


E essa circulação merece ser estudada.


7. O verdadeiro problema não é Yarvin


Aqui chegamos, talvez, à questão mais importante.


O perigo não está necessariamente em Curtis Yarvin conseguir tornar-se soberano dos Estados Unidos.


Isso é improvável.


O problema é outro.

Ideias políticas não precisam ser implementadas integralmente para transformar o campo político.


Uma ideia pode fracassar como programa e ainda assim vencer como linguagem.


Pode mudar aquilo que passa a ser considerado possível.

Pode deslocar os limites do aceitável.

Pode transformar uma fantasia política em hipótese respeitável.


Há alguns anos, defender abertamente a substituição da democracia americana por uma monarquia parecia uma excentricidade.


Hoje, Yarvin é convidado para debates em ambientes intelectuais europeus e aparece em grandes veículos de comunicação.


Em abril de 2026, por exemplo, ele participou de um simpósio no Schloss Elmau, na Alemanha, ao lado de intelectuais de grande projeção. O convite provocou justamente o debate sobre se a normalização de figuras da extrema direita estaria fazendo desaparecer antigas fronteiras do debate público.

Isso é politicamente relevante.


Porque o poder também se exerce através daquilo que uma sociedade passa a considerar discutível.


8. A tecnologia como nova aristocracia


É aqui que Yarvin se torna especialmente interessante para quem deseja compreender o século XXI.


A aristocracia do passado possuía terras.

A burguesia industrial passou a possuir fábricas.

A burguesia financeira controla capital.


E uma nova elite tecnológica controla algo diferente:

infraestrutura.


Plataformas.

Sistemas operacionais.

Redes sociais.

Nuvens computacionais.

Dados.

Inteligência artificial.

Sistemas de vigilância.

Meios de pagamento.

Algoritmos.

Capital de risco.


A concentração de poder deixa de ser apenas econômica.


Ela torna-se infraestrutural.


Quem controla a infraestrutura controla possibilidades.


E quem controla os sistemas que organizam a circulação da informação pode adquirir uma forma de poder que ultrapassa o poder tradicional do proprietário.


É aqui que a crítica de Yarvin encontra o mundo tecnológico.


Ele não está propondo simplesmente restaurar uma monarquia medieval.


Está imaginando uma soberania compatível com a era das plataformas.


Uma espécie de monarquia tecnológica.


9. Do soberano ao algoritmo

E aqui chegamos ao ponto que mais interessa à reflexão sobre a Governamentalidade Algorítmica.


Imagine uma sociedade na qual o Estado seja administrado como uma empresa.


Agora imagine que essa empresa seja administrada por sistemas algorítmicos.


A pergunta muda.


Não é mais:

Quem governa?


Passamos a perguntar:

Qual sistema decide?


Quem recebe crédito?

Quem consegue emprego?

Quem é considerado risco?

Quem recebe benefícios?

Quem é investigado?

Quem pode viajar?

Quem aparece nos resultados de busca?

Quem tem sua conta bloqueada?

Quem é considerado confiável?

Quem é excluído?


A tecnologia começa a realizar aquilo que a burocracia tradicional realizava.


Mas de maneira mais rápida.


Mais invisível.

Mais automatizada.

Mais difícil de contestar.


Esse é o verdadeiro ponto de contato entre Yarvin e o nosso presente.


A tecnocracia do século XXI não precisa necessariamente de um rei sentado em um trono.


Pode possuir painéis de controle.


10. Foucault teria muito a dizer sobre isso


Michel Foucault nos ensinou que o poder moderno não funciona apenas através da proibição.


Ele funciona através da administração da vida.


Classifica.

Registra.

Normaliza.

Observa.

Compara.

Calcula.

Distribui.


A governamentalidade moderna produz sujeitos administráveis.

A governamentalidade algorítmica acrescenta uma nova camada:

a previsão.


O sistema não precisa esperar que o indivíduo faça alguma coisa.


Pode tentar prever o que ele fará.

Pode calcular riscos.

Probabilidades.

Preferências.

Comportamentos.


A população deixa de ser apenas objeto de estatística.


Transforma-se em conjunto de dados continuamente processados.


Nesse contexto, a fantasia de Yarvin sobre um Estado administrado como sistema empresarial encontra uma infraestrutura histórica que não existia para os antigos monarcas.


O rei medieval tinha soldados.

O Estado burocrático tinha funcionários.

O Estado algorítmico possui dados, sensores, redes e modelos computacionais.


É uma diferença civilizacional.


11. E Marx?

Marx provavelmente nos obrigaria a fazer uma pergunta ainda mais incômoda.


Quem possui os meios tecnológicos de administração?


Porque falar em eficiência pode ocultar uma questão fundamental:

eficiência para quem?


Quem define os objetivos?

Quem possui a infraestrutura?

Quem controla os dados?

Quem define os parâmetros?

Quem decide o que é desperdício?

Quem decide o que é produtividade?

Quem determina quais vidas são economicamente úteis?


A ideologia tecnocrática frequentemente apresenta decisões políticas como se fossem problemas puramente técnicos.


Mas não existe algoritmo sem objetivo.

Não existe sistema sem parâmetros.

Não existe otimização sem uma função a ser otimizada.


E toda função de otimização contém uma escolha sobre aquilo que deve ser considerado desejável.


Portanto:

a política não desaparece quando entra o algoritmo.

Ela apenas pode tornar-se menos visível.


12. O sonho da neutralidade tecnológica


Essa talvez seja uma das maiores ilusões contemporâneas.


A ideia de que uma máquina poderia governar melhor porque não possui paixões políticas.


Mas uma máquina não escolhe os fins.


Ela executa objetivos definidos por alguém.


Se um algoritmo é programado para maximizar produtividade, ele maximizará produtividade.

Se for programado para reduzir custos, reduzirá custos.

Se for programado para minimizar riscos, poderá começar a tratar seres humanos como riscos estatísticos.


O problema não é o algoritmo.


É a sociedade que decide aquilo que o algoritmo deve otimizar.


Por isso, uma tecnocracia não elimina a política.


Ela pode apenas esconder a política dentro da arquitetura técnica.


13. A estética do novo autoritarismo


Existe ainda um aspecto cultural fascinante.


Yarvin não se apresenta como um ditador tradicional.


Ele não precisa.


A estética da nova direita tecnológica mistura:

programadores + bilionários + inteligência artificial + empreendedorismo + monarquia + memes + ironia + cultura gamer + futurismo + nostalgia.


É uma combinação aparentemente absurda.


Mas justamente por isso ela possui força.


O autoritarismo contemporâneo pode aparecer não com uniforme militar, mas com camiseta preta.


Não necessariamente através de um general, mas através de um programador.

Não através de um palácio, mas de uma empresa de tecnologia.

Não através da censura explícita, mas através de uma plataforma.


Essa transformação estética é importante.


Porque o fascismo histórico possuía uma estética própria.


O autoritarismo tecnológico contemporâneo está construindo outra.


14. E o chamado “Anticristo”?


É aqui que devemos ter cuidado.


Nos últimos anos, tornou-se comum nas redes sociais procurar uma figura que represente o “novo Anticristo”, especialmente em ambientes religiosos e conspiratórios.


Não há fundamento histórico ou teológico sério para afirmar que Curtis Yarvin seja o Anticristo.


E tampouco há fundamento para afirmar que qualquer outra personalidade política contemporânea seja literalmente essa figura.


Mas a pergunta pode ser transformada em algo filosoficamente interessante:

por que uma sociedade tecnológica continua produzindo imagens apocalípticas?


Talvez porque estejamos diante de uma transformação tão profunda que antigas categorias religiosas retornem como metáforas políticas.


O Anticristo, nesse sentido simbólico, poderia representar a inversão de valores:

o humano subordinado à eficiência;

a política subordinada à administração;

a liberdade subordinada à segurança;

a sociedade subordinada ao sistema;

o indivíduo reduzido a dado;

a consciência reduzida a comportamento previsível.


Não é preciso acreditar em profecias para perceber o perigo.


O verdadeiro “Anticristo” contemporâneo, se quisermos utilizar a expressão como metáfora, não precisaria possuir rosto humano.


Poderia ser um sistema no qual o ser humano deixa de ser finalidade e passa a ser variável.


Essa interpretação é muito mais séria do que simplesmente apontar o dedo para uma personalidade.


15. Yarvin não inventou o futuro


É importante não atribuir a Yarvin um poder que ele não possui.


Ele não criou sozinho o tecnolibertarianismo.

Não inventou a concentração de capital.

Não inventou a vigilância digital.

Não criou a inteligência artificial.

Não criou o autoritarismo.

Não criou a crítica conservadora à democracia.


Ele é parte de uma constelação muito maior.


O próprio debate acadêmico contemporâneo identifica a confluência entre setores da tecnologia, libertarianismo radical, transumanismo e neorreação.


Autores como Nick Land tiveram papel decisivo nessa formulação. A diferença é que Land oferece uma elaboração filosófica muito mais explícita, enquanto Yarvin opera principalmente como escritor político e provocador digital.

É justamente essa constelação que precisamos estudar.


Porque ela revela uma transformação histórica:

a antiga extrema direita sonhava com o retorno ao passado.


A nova direita tecnológica pode sonhar com um futuro autoritário.

Essa diferença é enorme.


16. O perigo está na síntese


Talvez o elemento mais perturbador seja justamente a combinação de coisas que tradicionalmente pareciam incompatíveis:

capitalismo radical + tecnologia de ponta + autoritarismo + monarquia + inteligência artificial + individualismo extremo.


A velha direita queria restaurar a ordem.


A nova direita tecnológica quer reprogramá-la.


Essa palavra é importante.


Reprogramar.


Porque a metáfora do computador permite imaginar a sociedade como um sistema defeituoso.


Se o sistema está errado, não é preciso negociar com ele.


É preciso reiniciá-lo.


E quem acredita possuir conhecimento suficiente para reprogramar a sociedade pode chegar à conclusão de que a participação popular é apenas um obstáculo.

Aqui reside o núcleo autoritário.


17. A democracia como “bug”


Essa talvez seja a pergunta decisiva.


E se uma geração inteira começar a acreditar que a democracia é simplesmente um sistema operacional obsoleto?


Então os problemas sociais deixam de ser vistos como conflitos históricos.


Desigualdade vira problema de eficiência.

Pobreza vira falha administrativa.

Conflito trabalhista vira ineficiência.

Participação política vira ruído.

Direitos sociais tornam-se custos.

Burocracia vira inimiga.

E o Estado passa a ser tratado como software defeituoso.


Nesse mundo, a solução parece evidente:

chamar um engenheiro.


Mas existe uma pergunta que nenhum engenheiro consegue responder sozinho:

Que sociedade queremos construir?


Essa pergunta continua sendo política.


E continuará sendo enquanto existirem seres humanos.


18. A grande disputa do século XXI


Talvez a verdadeira disputa política das próximas décadas não seja simplesmente entre esquerda e direita.


Ela poderá ocorrer entre duas concepções radicalmente diferentes de tecnologia.


De um lado:

tecnologia como instrumento de emancipação humana.


De outro:

tecnologia como instrumento de administração humana.


De um lado:

o algoritmo subordinado à sociedade.


De outro:

a sociedade subordinada ao algoritmo.


De um lado:

a inteligência artificial como ampliação das capacidades humanas.


De outro:

a inteligência artificial como infraestrutura de controle.


É nesse ponto que figuras como Curtis Yarvin tornam-se relevantes.


Não porque devam ser transformadas em demônios.

Nem porque devam ser tratadas como gênios.


Mas porque suas ideias revelam tendências que já existem no mundo real.


19. O problema não é o rei


Talvez o problema mais profundo seja este:

por que alguém desejaria um rei?


A resposta de Yarvin passa pela descrença na capacidade das instituições democráticas de produzir decisões eficientes.


Essa descrença não nasceu do nada.


As democracias contemporâneas realmente enfrentam crises.

Desigualdade.

Polarização.

Desinformação.

Corrupção.

Burocratização.

Crises ambientais.

Crises migratórias.

Crises econômicas.

Concentração de riqueza.

Desconfiança institucional.


Mas existe uma escolha diante dessas crises.


Podemos concluir:

a democracia precisa ser destruída.


Ou podemos perguntar:

como reconstruir a democracia para que ela volte a responder aos problemas reais da sociedade?


São caminhos completamente diferentes.


O primeiro conduz à concentração.

O segundo exige participação.


20. Por que devemos prestar atenção


Curtis Yarvin não é o novo Anticristo.


Não é o dono secreto do mundo.

Não controla sozinho a política americana.

Não é correto transformá-lo em uma figura onipotente.


Mas seria igualmente errado tratá-lo como um simples excêntrico inofensivo.


Porque suas ideias encontraram interlocutores em lugares onde antes pareciam improváveis.


E porque vivemos em um momento histórico no qual tecnologia e poder econômico estão se aproximando de maneira inédita.


O que importa não é apenas aquilo que Yarvin deseja.


Importa aquilo que a sociedade tecnológica contemporânea está começando a considerar possível.


Uma sociedade em que:

o CEO governa,

o algoritmo classifica,

a plataforma controla,

o dado substitui o cidadão,

a eficiência substitui a política,

e a inteligência artificial passa a mediar cada vez mais decisões humanas.


Essa sociedade não precisa esperar por um rei.


Ela já pode estar construindo uma forma de soberania muito mais sofisticada.


21. O verdadeiro perigo


Talvez, portanto, devêssemos abandonar por um instante a pergunta:


“Curtis Yarvin é perigoso?”

E substituí-la por outra:

“O que há em nossa própria sociedade que tornou possível que as ideias de

Curtis Yarvin encontrassem terreno fértil?”


Essa é a pergunta realmente difícil.


Porque Yarvin é apenas um sintoma.


O fenômeno maior é a crise da democracia diante da concentração extraordinária de capital, tecnologia, informação e poder.


E, nesse sentido, o debate sobre Yarvin é também um debate sobre nós mesmos.


Sobre o mundo que estamos construindo.

Sobre aquilo que aceitamos em nome da eficiência.

Sobre aquilo que entregamos em troca da conveniência.

Sobre quanto poder estamos dispostos a concentrar nas mãos daqueles que controlam as infraestruturas digitais.


E sobre uma pergunta que deveria estar no centro de toda discussão sobre inteligência artificial:


quem governa os governantes quando os governantes são sistemas?


Essa pergunta talvez seja mais importante do que descobrir quem será o próximo rei.


Porque um rei ainda possui um rosto.


Um algoritmo pode não possuir nenhum.


E talvez seja justamente aí que comece o verdadeiro problema político do século XXI.


Epílogo — O futuro não precisa de um trono


Curtis Yarvin imagina uma sociedade na qual o poder seja concentrado para produzir eficiência.


Nós podemos imaginar outra coisa.


Uma sociedade na qual a tecnologia aumente a capacidade humana de participar das decisões que afetam sua própria existência.


A diferença é fundamental.


No primeiro modelo, a tecnologia serve ao poder.

No segundo, deve servir à sociedade.

No primeiro, o cidadão é administrado.

No segundo, continua sendo sujeito.

No primeiro, a eficiência justifica a concentração.

No segundo, a eficiência permanece subordinada à liberdade, à justiça e à dignidade humana.


Talvez esta seja a verdadeira disputa que começa a se desenhar diante de nós.


Não entre homens e máquinas.


Mas entre duas concepções de humanidade.


Uma aceita que o ser humano seja transformado em dado.


A outra insiste que, mesmo em uma civilização algorítmica, o ser humano não pode deixar de ser finalidade.


E é por isso que precisamos estudar Curtis Yarvin.


Não para transformá-lo em um monstro.


Mas para compreender o mundo que pode tornar suas ideias possíveis.


Porque ideias perigosas raramente chegam ao poder anunciando que são perigosas.


Às vezes chegam vestidas de eficiência.

Às vezes chegam acompanhadas de inovação.

Às vezes chegam prometendo apenas “consertar o sistema”.


E, quando percebemos que o sistema foi completamente reprogramado, talvez já seja tarde demais para perguntar quem segurava o teclado.


X


Curtis Yarvin passou da marginalidade da chamada Dark Enlightenment para os círculos de influência da nova direita tecnológica. Sua defesa de uma monarquia corporativa e de um Estado comandado como uma empresa revela uma inquietante convergência entre tecnologia, capital e autoritarismo. O que acontece quando a democracia passa a ser tratada como um sistema operacional defeituoso que precisa ser substituído?



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