Quem é você quando o seu trabalho desaparece?

Há uma pergunta que parece simples, mas talvez seja uma das mais difíceis que alguém pode fazer a si mesmo:
Quem é você?
Experimente fazê-la a alguém.
É bastante provável que a resposta venha rapidamente:
— Sou médico.— Sou professor.— Sou advogado.— Sou empresário.— Sou músico.— Sou engenheiro.
Quase sempre respondemos à pergunta sobre quem somos dizendo o que fazemos.
Mas são realmente a mesma coisa?
Quando alguém diz “sou médico”, está dizendo quem é ou está dizendo qual é a sua profissão? Quando alguém diz “sou professor”, está revelando a sua identidade ou apenas descrevendo uma função que exerce na sociedade?
Talvez exista uma pequena confusão escondida dentro dessas respostas — uma confusão que se tornou tão habitual que já quase não percebemos sua existência.
Você não é aquilo que faz.
Mas, em algum momento da história da modernidade, essas duas perguntas começaram a se aproximar perigosamente:
O que você faz? Quem você é?
E talvez seja necessário perguntar quando e por que isso aconteceu.
O trabalho como identidade
Trabalhar é uma das formas pelas quais nos apresentamos ao mundo.
O trabalho produz, transforma, sustenta, cria, organiza. Ele também revela alguma coisa de nós. A maneira como alguém trabalha pode dizer muito sobre sua disciplina, responsabilidade, criatividade, ambição, cuidado ou relação com os outros.
Nesse sentido, o trabalho pode falar sobre o caráter.
Mas dizer que o trabalho revela algo de quem somos é diferente de dizer que ele é aquilo que somos.
Existe uma diferença fundamental entre essas duas afirmações.
Quando transformamos nossa profissão em identidade, corremos o risco de reduzir uma existência inteira a uma função social.
O médico deixa de ser alguém que exerce medicina e passa a ser apenas “o médico”.
O professor deixa de ser uma pessoa que ensina e passa a existir como “o professor”.
O empresário deixa de ser alguém que administra uma atividade econômica e passa a ser “o empresário”.
E então surge uma pergunta incômoda:
Quem resta quando retiramos o cargo, a profissão, o salário, o escritório, a empresa, o reconhecimento e o título?
Quem é você quando ninguém precisa daquilo que você sabe fazer?
A necessidade de que aquilo que fazemos importe
É aqui que a reflexão de Ernest Becker se torna especialmente provocadora.
Becker percebeu que o ser humano não vive apenas de necessidades materiais.
Precisamos construir significados para a nossa existência. Precisamos sentir que aquilo que fazemos possui algum valor, que nossa passagem pelo mundo não é absolutamente indiferente.
Talvez seja por isso que necessitemos tanto que o nosso trabalho importe.
Não queremos apenas ganhar dinheiro.
Queremos sentir que somos necessários.
Queremos reconhecimento.
Queremos deixar uma marca.
Queremos acreditar que aquilo que fazemos possui alguma importância para alguém — e, em uma dimensão ainda mais profunda, queremos acreditar que a nossa própria existência importa.
O perigo aparece quando essa necessidade legítima de significado encontra uma sociedade que nos ensina a transformar produtividade em valor pessoal.
Então começamos a medir a nós mesmos pelo que produzimos.
Quanto você ganha?
Qual é o seu cargo?
Quantas pessoas trabalham para você?
Qual é o tamanho da sua empresa?
Quantos livros publicou?
Quantas pessoas ouvem sua música?
Quantos seguidores você possui?
Pouco a pouco, a pergunta “quem é você?” transforma-se numa espécie de currículo.
E o currículo começa a ocupar o lugar da pessoa.
Quando a profissão se transforma em vocação
Max Weber percebeu uma dimensão importante desse processo ao investigar a formação moderna da ideia de vocação — o Beruf.
O trabalho moderno não é apenas uma maneira de obter os meios necessários para viver. Ele pode adquirir uma dimensão moral: trabalhar passa a significar cumprir uma tarefa, realizar uma missão, demonstrar disciplina e provar, de alguma maneira, o próprio valor.
Isso produziu uma transformação profunda.
O trabalho deixou de ser apenas aquilo que fazemos para sobreviver e passou também a ser uma das principais formas pelas quais demonstramos quem acreditamos ser.
Talvez seja por isso que a pergunta “o que você faz?” tenha adquirido um peso tão grande nas sociedades modernas.
Ela parece inocente.
Mas frequentemente carrega outra pergunta escondida:
Quanto você vale?
O eu que precisa desempenhar um papel
Há outra dimensão dessa questão que pode ser aproximada das reflexões de Donald Winnicott.
Winnicott investigou, entre outras coisas, a tensão entre o verdadeiro self e aquilo que chamou de falso self — uma organização da personalidade construída para responder às exigências do ambiente.
Não precisamos transformar essa ideia em uma explicação total da identidade humana para perceber sua força filosófica.
Existe uma pergunta que permanece:
Quanto daquilo que apresentamos ao mundo nasceu de nós e quanto foi
aprendido para que pudéssemos ser aceitos pelo mundo?
Aprendemos a desempenhar papéis.
Aprendemos a ser bons filhos, bons alunos, bons profissionais, bons pais, bons cidadãos.
Aprendemos aquilo que esperam de nós.
E, muitas vezes, somos tão eficientes em desempenhar esses papéis que esquecemos de perguntar quem existe por trás deles.
Talvez um dos grandes dramas da existência seja justamente este:
podemos passar a vida inteira sendo muito bons naquilo que esperam que sejamos sem descobrir aquilo que realmente somos.
Se amanhã você não pudesse mais fazer aquilo que faz
Imagine, por um instante, que amanhã você perdesse a profissão.
Não o seu valor.
Não sua inteligência.
Não sua memória.
Não suas experiências.
Apenas a função que exerce.
O médico já não pudesse exercer medicina.
O professor já não pudesse ensinar.
O empresário já não tivesse uma empresa.
O músico já não pudesse publicar suas músicas.
O escritor já não pudesse publicar seus livros.
O que permaneceria?
Talvez, nesse silêncio, a pergunta finalmente pudesse aparecer sem a interferência do cargo:
Quem sou eu?
E talvez descobríssemos que somos muito mais difíceis de definir do que imaginávamos.
Somos memória.
Somos desejo.
Somos relações.
Somos contradições.
Somos aquilo que fizemos e também aquilo que ainda não conseguimos fazer.
Somos nossas perguntas.
Somos aquilo que amamos.
Somos aquilo que tememos.
Somos aquilo que lembramos e aquilo que esquecemos.
Somos também aquilo que fazemos — mas não somos somente aquilo que fazemos.
O trabalho pode expressar quem somos
Há, entretanto, uma diferença importante entre rejeitar a identificação entre trabalho e identidade e desprezar o trabalho.
O trabalho pode ser uma das mais belas expressões de uma existência.
Um professor pode encontrar no ensino uma forma de cuidado.
Um médico pode transformar o conhecimento em serviço.
Um músico pode transformar a experiência humana em som.
Um escritor pode transformar pensamento em linguagem.
Nesse caso, o trabalho não aprisiona necessariamente a identidade.
Ele pode expressá-la.
A questão não é abandonar aquilo que fazemos.
É impedir que aquilo que fazemos se transforme na única resposta possível para a pergunta sobre quem somos.
Porque existe uma diferença enorme entre dizer:
“Eu sou músico.”
e dizer:
“Eu sou alguém que encontrou na música uma das formas de expressar aquilo que sou.”
Na primeira frase, a profissão parece conter a pessoa.
Na segunda, a pessoa contém a profissão.
Quem você seria sem o seu nome social?
Talvez a pergunta mais radical não seja sequer “quem você é?”, mas:
Quem você seria se ninguém soubesse o que você faz?
Sem currículo.
Sem cargo.
Sem títulos.
Sem patrimônio.
Sem seguidores.
Sem reconhecimento.
Sem a necessidade de provar alguma coisa.
Talvez seja nesse lugar que comece uma investigação verdadeiramente existencial.
Porque existe uma parte de nós que deseja desesperadamente ser reconhecida pelo mundo.
E existe outra que talvez apenas queira existir.
Entre essas duas forças construímos aquilo que chamamos de identidade.
Por isso, talvez a pergunta “quem você é?” não tenha uma resposta definitiva.
Talvez ela precise permanecer aberta.
E talvez seja justamente essa abertura que nos mantém humanos.
Porque enquanto ainda podemos perguntar quem somos, ainda existe alguma distância entre nós e os papéis que desempenhamos.
Ainda podemos mudar.
Ainda podemos nos contradizer.
Ainda podemos abandonar uma identidade que já não nos serve.
Ainda podemos descobrir alguém dentro de nós que ficou escondido durante muitos anos atrás daquilo que aprendemos a chamar de “eu”.
No fim, talvez não sejamos aquilo que fazemos.
Talvez sejamos aquilo que permanece quando aquilo que fazemos deixa de ser suficiente para explicar nossa existência.



Comentários