top of page

Almas Mortas e a Mercantilização da Vida: Gogol e a Degradação Moral do Capitalismo Contemporâneo

carlospessegatti
23 de jun.
4 min de leitura


Quando o escritor russo Nikolai Gogol publicou Almas Mortas, em 1842, seu objetivo imediato era satirizar a Rússia czarista, seus proprietários rurais, seus burocratas e a corrupção disseminada pelo sistema de servidão. Entretanto, a obra ultrapassou seu próprio tempo e acabou se transformando em uma das mais poderosas críticas da desumanização social já produzidas pela literatura.


Hoje, quase dois séculos depois, Almas Mortas continua assustadoramente atual.


A mercantilização dos seres humanos, a burocracia que esvazia a dignidade, a transformação do trabalhador em número e a supremacia do mercado sobre a vida reaparecem sob novas formas em nossas sociedades.


O enredo: comprar pessoas que já morreram

O protagonista, Pavel Tchítchikov, percorre a Rússia comprando "almas mortas": servos que já haviam falecido, mas que ainda constavam nos registros oficiais do Estado.


Como os censos eram realizados em longos intervalos, esses trabalhadores mortos continuavam existindo burocraticamente. Os proprietários ainda pagavam impostos por eles. Tchítchikov percebe uma oportunidade: adquirir legalmente essas pessoas inexistentes e utilizá-las como patrimônio fictício para obter crédito e ascensão social.


O absurdo da situação revela a perversidade do sistema:

  • o servo não é uma pessoa;

  • não possui subjetividade;

  • não possui história;

  • é apenas uma unidade econômica.


Mesmo morto, continua existindo como mercadoria.


O título do romance possui, portanto, um duplo significado. As almas mortas são os servos falecidos, mas também os próprios vivos: os proprietários, funcionários e negociantes que perderam sua humanidade.



A transformação do homem em patrimônio

A grande denúncia de Gogol não é simplesmente a escravidão servil russa.

Sua crítica é mais profunda.


Ele revela uma sociedade em que o valor humano desaparece diante do valor econômico.


As pessoas tornam-se:

  • ativos;

  • propriedades;

  • números;

  • registros;

  • mercadorias.


O ser humano deixa de ser fim em si mesmo e transforma-se em instrumento.

Essa é precisamente a questão que continua atravessando o século XXI.


O trabalhador contemporâneo como "alma morta"

As formas mudaram. A lógica permanece.


Hoje não existem servos registrados em inventários rurais. Entretanto, milhões de trabalhadores são reduzidos a indicadores:

  • produtividade;

  • metas;

  • desempenho;

  • custo operacional;

  • índice de eficiência;

  • horas vendidas.


Em inúmeros setores, o indivíduo desaparece atrás de planilhas, aplicativos e algoritmos.


Motoristas, entregadores, operadores de telemarketing, funcionários de plataformas digitais e trabalhadores precarizados frequentemente tornam-se invisíveis socialmente.

Movem a economia.

Produzem riqueza.


Mantêm as cidades funcionando.

Mas permanecem ausentes do reconhecimento coletivo.


São indispensáveis economicamente e descartáveis socialmente.


São, de certo modo, as novas "almas mortas".


A burocracia como máquina de desumanização

Em Almas Mortas, a burocracia estatal é incapaz de perceber o absurdo.

Os documentos existem.

Os carimbos existem.

Os registros existem.


Portanto, as pessoas "existem".


A vida concreta torna-se secundária diante do papel.


No presente, essa lógica persiste.

Um trabalhador pode:

  • perder direitos por falhas administrativas;

  • ser avaliado exclusivamente por métricas;

  • ser demitido por algoritmos;

  • ser excluído por sistemas automatizados.


A burocracia moderna, digitalizada e aparentemente eficiente, frequentemente produz uma nova invisibilidade.


O indivíduo torna-se dado.


O cidadão transforma-se em cadastro.


A pessoa converte-se em informação.


A moral dos exploradores

Gogol também retrata uma elite incapaz de perceber sua própria degradação moral.


Os proprietários rurais de seu romance não são grandes vilões demoníacos.

São, sobretudo:

  • medíocres;

  • gananciosos;

  • vazios;

  • indiferentes.


A exploração torna-se normal.

O privilégio torna-se natural.

A desigualdade transforma-se em paisagem.

Essa observação possui enorme atualidade.


Em diversas sociedades contemporâneas, qualquer ampliação de direitos trabalhistas costuma ser apresentada como ameaça ao mercado.


Debates sobre:

  • redução da jornada;

  • limitação da escala 6×1;

  • fortalecimento da proteção social;

  • valorização salarial;

  • ampliação do tempo livre;

frequentemente encontram resistência intensa por parte de setores econômicos.


O argumento costuma ser sempre o mesmo: os direitos ameaçam a eficiência.


Entretanto, Gogol nos ensina algo fundamental: quando a rentabilidade passa a valer mais do que a dignidade humana, não é apenas o trabalhador que se degrada.


A sociedade inteira adoece.


A mercadoria humana e a crítica marxista

Embora Gogol tenha escrito décadas antes de Karl Marx desenvolver sua crítica do capitalismo, há notáveis aproximações.


Marx descreve a mercadoria como o elemento central da sociedade capitalista.


Quando a força de trabalho se converte em mercadoria, o trabalhador passa a vender sua própria capacidade de viver.


Em Almas Mortas, os servos literalmente são mercadorias.


No capitalismo contemporâneo, a mercadoria já não é o corpo do trabalhador, mas seu tempo, sua atenção, sua energia, sua criatividade e sua própria subjetividade.


A lógica, porém, permanece semelhante:

  • quanto vale uma hora de vida?

  • quanto custa uma existência?

  • qual o preço da dignidade?


Quando tudo se converte em valor de troca, inclusive as pessoas, a sociedade produz aquilo que Gogol chamou de almas mortas.


O esvaziamento da subjetividade

Talvez a dimensão mais profunda do romance seja espiritual.

As almas mortas não são apenas os explorados.

Também são os exploradores.

O dinheiro ocupa o lugar dos afetos.

O cálculo substitui a solidariedade.

A propriedade torna-se mais importante do que a vida.


Nesse sentido, a crítica de Gogol aproxima-se de muitas análises contemporâneas sobre a dessimbolização da vida social, a cultura do desempenho e a redução do indivíduo à lógica econômica.


Uma sociedade que mede tudo em produtividade acaba incapaz de responder perguntas essenciais:

  • Quem somos?

  • Para que trabalhamos?

  • O que significa uma vida boa?

  • Qual o lugar da dignidade humana?


Por quanto tempo permitiremos que nossas almas sejam mercadoria?

Almas Mortas permanece atual porque sua pergunta central ainda não foi respondida.


Uma sociedade que transforma pessoas em instrumentos inevitavelmente se degrada moralmente.

Quando o trabalhador é apenas custo.

Quando o idoso é apenas despesa.

Quando o desempregado é apenas estatística.

Quando o artista é apenas produto.

Quando o conhecimento é apenas investimento.

Quando o tempo livre é considerado improdutivo.

Então não estamos apenas produzindo mercadorias.


Estamos produzindo almas mortas.


A grande advertência de Gogol é que nenhuma sociedade consegue preservar sua humanidade quando transforma pessoas em coisas.


A economia existe para servir à vida.


Quando a vida passa a servir à economia, instala-se a inversão moral.


E talvez a pergunta que o romance nos lança, quase duzentos anos depois, seja precisamente esta:


Por quanto tempo aceitaremos viver em sistemas que contabilizam nossos corpos, compram nosso tempo, precificam nossa existência e tratam nossas almas como mercadorias?


Enquanto essa pergunta permanecer aberta, Almas Mortas continuará sendo não apenas um romance russo do século XIX, mas um espelho perturbador do nosso próprio tempo.



Comentários


Convidado:
24 de jun.

O livro do Gogol comprovam a existência do grande abismo humano entre a intelectualidade e a moralidade. O materialismo, a ganância e o egoísmo contra a liberdade, a fraternidade e a igualdade.

Curtir

Site de música

callerajarrelis electronic progressive music

callerajarrelis Electronic  Progressive Music

bottom of page