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O Lobo Algorítmico - Capítulo I - O Homem desconectado

  • carlospessegatti
  • 30 de jun.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 20 de jul.



PRÓLOGO


O HOMEM DESCONECTADO


Conheci Henrique Valente durante os últimos meses em que habitou o apartamento 803 do Edifício Aurora.


Não posso dizer que éramos amigos. A palavra amizade exige uma intimidade que nunca chegamos a construir. Éramos, antes, dois homens que se encontravam ocasionalmente no elevador, no corredor ou na pequena cafeteria da esquina, onde ele costumava permanecer longos períodos diante de uma xícara de café já fria.


Tinha pouco mais de setenta anos.


Andava lentamente.


Vestia-se com uma elegância antiga que parecia sobreviver a um mundo que já não o compreendia.


Nunca o vi utilizar o telefone celular.


Não porque não o possuísse. Ele o carregava no bolso do casaco como quem transporta um objeto perigoso. Raramente o retirava.


Certa vez perguntei-lhe:

— O senhor não gosta de redes sociais?

Ele sorriu.

— Gosto tanto quanto os antigos marinheiros gostavam dos naufrágios.


A resposta ficou comigo durante semanas.


Henrique era professor aposentado, músico por vocação e ensaísta por necessidade. Seu apartamento encontrava-se repleto de livros, sintetizadores antigos, discos de vinil, cadernos manuscritos e equipamentos eletrônicos cuja finalidade eu jamais compreendi.


Por vezes escutava música atravessando as paredes.


Não eram canções.


Eram paisagens.


Longas notas sustentadas que pareciam vir de algum lugar entre as estrelas e a melancolia.


Pouco a pouco comecei a perceber que havia nele algo de profundamente deslocado.


Não se tratava de solidão.

Milhares de pessoas vivem sozinhas.

Não era tristeza.

Todos envelhecem.

Era outra coisa.


Como se tivesse sobrevivido ao mundo em que acreditava.


Num fim de tarde de inverno, encontrei-o sentado no banco da praça em frente ao edifício.


Os ônibus deslizavam.


As vitrines projetavam anúncios personalizados.

Grandes painéis luminosos pareciam conversar com os transeuntes.


Henrique observava tudo.


Perguntei-lhe:

— O que está olhando?

Ele respondeu:

— O pastor.

— Que pastor?

— O invisível.

Permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois acrescentou:

— Antigamente os homens acreditavam que Deus os observava. Hoje são as máquinas.


Foi a última conversa que tivemos.


Algumas semanas depois, o apartamento encontrava-se vazio.


Nenhum parente apareceu.


Nenhum amigo veio procurá-lo.


Apenas um funcionário do edifício me entregou uma caixa.


Dentro dela havia cadernos, folhas avulsas e um arquivo digital contendo centenas de páginas.


Na capa do primeiro manuscrito lia-se:


O LOBO ALGORÍTMICO

Memórias de um homem parcialmente humano.


Não sei se estas páginas constituem um romance, um diário, uma confissão ou o relato de uma lenta enfermidade.


Seja o que forem, decidi organizá-las.


Talvez porque reconhecesse, em algumas delas, algo que também habita nossa época.


Talvez porque, ao lê-las, tive a estranha sensação de que Henrique Valente não escrevia apenas sobre si.


Escrevia sobre todos nós.



CAPÍTULO I


O ÚLTIMO INTELECTUAL


Aos setenta anos descobri que me tornara uma espécie em extinção.

Não falo dos velhos.

Os velhos sempre existiram.


Refiro-me aos homens que ainda acreditam que o silêncio possui algum valor.

Levanto-me cedo.

Preparo café.

Abro a janela.


A cidade já acorda produzindo informações.


As pessoas caminham olhando para as mãos.


As mãos olham para as telas.


E as telas olham para as pessoas.


Às vezes imagino que a humanidade inteira se transformou num enorme organismo luminoso, um sistema nervoso espalhado pelas ruas, pelas estações de metrô, pelos restaurantes e pelos apartamentos.


Os antigos diziam que a alma habitava o corpo.


Hoje ela parece habitar os servidores.


Passei quarenta anos ensinando filosofia.

Expliquei Platão.

Expliquei Marx.

Expliquei Nietzsche.

Expliquei os existencialistas.

Discuti a liberdade.

A consciência.

A alienação.


Hoje pergunto-me se ensinei alguma coisa.


Os alunos carregavam cadernos.


Depois passaram a carregar computadores.


Depois tablets.


Agora carregam mundos inteiros nos bolsos.


Talvez a filosofia tenha perdido a corrida.


Talvez o mercado tenha aprendido a responder às perguntas antes mesmo que elas fossem feitas.


Abro o computador.


As notícias me conhecem.


Os anúncios me conhecem.


As músicas me conhecem.


Os vídeos me conhecem.


Há uma máquina que parece saber quem sou.


Às vezes tenho a impressão de que ela me conhece melhor do que eu mesmo.

Não é uma sensação agradável.


Antigamente os escritores temiam a censura.


Hoje temo a previsão.


Ser previsto é uma forma sofisticada de aprisionamento.

Saio para caminhar.


As cafeterias estão cheias.


Todos estão acompanhados.


Ninguém conversa.


Uma mulher sorri para alguém que não está presente.


Um homem ri diante de uma tela.


Uma criança desliza o dedo sobre um dispositivo antes mesmo de aprender a escrever.


Penso então que talvez eu seja apenas um velho ressentido.


Toda geração acredita que o mundo acabou justamente durante a sua existência.


Talvez eu esteja apenas envelhecendo.

Mas existe outra possibilidade.


Talvez estejamos realmente atravessando uma mudança tão profunda quanto a invenção da imprensa.


Talvez a máquina tenha deixado de servir aos homens.

Talvez os homens tenham começado a servir às máquinas.

Volto para casa.


No elevador, um anúncio aparece na tela.


Ele me oferece exatamente o livro que procurei na noite anterior.


Sinto um frio estranho.


Penso:

Quem observou minha procura?

Quem a vendeu?

Quem a comprou?


Ao entrar no apartamento, olho para o espelho da sala.

Permaneço ali durante alguns segundos.

Vejo um homem cansado.

Um professor aposentado.

Um músico fracassado.

Um leitor de livros antigos.

Um sobrevivente.


Subitamente ocorre-me uma ideia.


Talvez eu esteja dividido.


Não entre homem e lobo.


Mas entre homem e algoritmo.


Uma parte de mim ainda deseja pensar.


A outra deseja ser conduzida.


Uma parte deseja liberdade.


A outra deseja recomendações.


Uma parte busca silêncio.


A outra procura distração.


Talvez o lobo tenha mudado.


Talvez ele agora viva dentro das máquinas.

Ou pior.


Talvez viva dentro de mim.



"Toda época constrói seus labirintos. Os mais perigosos são aqueles que aprendemos a chamar de normalidade."



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