O Lobo Algorítmico - Capítulo III - O Perfil que me Observa
- carlospessegatti
- 7 de jul.
- 4 min de leitura

Foi numa terça-feira comum.
Ou talvez nenhuma terça-feira seja realmente comum quando alguém começa a perceber que existe uma versão de si vivendo em outro lugar.
Tudo começou por causa de um livro.
Enquanto caminhava pela cidade, entrei numa pequena livraria de rua. Fazia anos que não comprava um livro sem antes pesquisar resenhas, comparar preços ou consultar alguma recomendação. Naquele dia fiz exatamente o contrário.
Escolhi ao acaso um volume antigo sobre astronomia. Gostei do cheiro das páginas. Gostei da capa. Gostei do acaso.
Paguei e fui embora.
Naquela noite, ao abrir o computador, a primeira propaganda que apareceu era de telescópios.
Sorri.
"Pura coincidência."
Minutos depois surgiu um anúncio de um curso sobre cosmologia.
Em seguida, vídeos sobre o telescópio James Webb.
No celular, apareceram sugestões de documentários sobre o universo.
No dia seguinte, anúncios de observatórios.
No outro, aplicativos para mapear constelações.
A coincidência começou a adquirir método.
Passei a fazer pequenos experimentos.
Numa manhã permaneci durante vários minutos diante da vitrine de uma loja de instrumentos musicais, admirando um sintetizador modular que jamais pesquisara na internet.
Não fotografei.
Não toquei nele.
Não fiz nenhuma busca.
Dois dias depois, meu navegador estava repleto de propagandas de sintetizadores, interfaces de áudio e controladores MIDI.
Aquilo me perturbou.
Durante anos imaginei que as plataformas apenas reagiam ao que eu pesquisava.
Agora começava a suspeitar que elas reagiam também ao que eu contemplava.
Era como se meus olhos fossem sensores.
Como se meu silêncio produzisse dados.
Comecei então a desconfiar da existência de alguém.
Não uma pessoa.
Um outro eu.
Um perfil.
Uma criatura feita exclusivamente de informações.
Não possuía corpo.
Não respirava.
Não dormia.
Não envelhecia.
Mas me conhecia.
Talvez melhor do que eu próprio.
Enquanto eu esquecia livros que havia lido, ele jamais esquecia um clique.
Enquanto eu mudava de opinião, ele armazenava todas elas.
Enquanto eu hesitava, ele calculava probabilidades.
Enquanto eu vivia, ele me transformava em estatística.
Pela primeira vez compreendi que talvez existissem dois Henriques.
O biológico.
E o matemático.
O primeiro era imprevisível.
O segundo era apenas uma sequência de vetores.
Passei a imaginar onde ele morava.
Meu Perfil.
Não habitava meu computador.
Nem meu celular.
Vivíamos separados.
Eu, neste apartamento.
Ele, disperso por milhares de servidores espalhados pelo planeta.
Talvez um fragmento estivesse na Irlanda.
Outro em Cingapura.
Outro em São Paulo.
Outro em algum deserto gelado onde enormes edifícios metálicos respiravam eletricidade noite e dia.
Meu Perfil era um exilado geográfico.
Mas um íntimo existencial.
Conhecia meus horários.
Sabia quando eu acordava.
Quanto tempo permanecia lendo.
Quando diminuía a velocidade da digitação.
Em quais dias escrevia mais.
Em quais dias permanecia silencioso.
Sabia até quando minha solidão aumentava.
Pois era justamente nesses dias que surgiam anúncios de cursos, viagens, aplicativos de conversa e promessas de uma felicidade pronta para entrega.
Percebi, então, que a publicidade deixara de vender produtos.
Ela passara a administrar estados emocionais.
Foi nessa época que encontrei uma frase atribuída ao matemático polonês Alfred Korzybski.
"O mapa não é o território."
Fechei o livro.
Sorri amargamente.
O problema do século XXI talvez fosse exatamente o contrário.
As grandes plataformas já não distinguiam o mapa do território.
Meu Perfil tornara-se mais real do que eu.
As empresas não negociavam comigo.
Negociavam com meu mapa.
Os bancos confiavam mais nele.
Os anunciantes preferiam conversar com ele.
Os algoritmos acreditavam nele.
E, aos poucos, comecei a perceber que eu próprio começava a obedecê-lo.
Se ele dizia que eu gostava de determinado assunto, acabava recebendo tanto daquele assunto que realmente passava a gostar.
Se dizia que eu pertencia a certo grupo, começava a conviver apenas com pessoas daquele grupo.
Minha liberdade já não estava sendo retirada.
Estava sendo conduzida.
Era uma prisão construída por recomendações.
Uma cela confortável.
Sem grades.
Sem carcereiros.
Apenas sugestões.
Naquela noite desliguei todos os aparelhos.
O apartamento mergulhou num silêncio quase desconhecido.
Pela janela, observei a cidade.
Milhares de janelas permaneciam acesas.
Milhares de rostos iluminados por pequenas telas.
Imaginei milhões de Perfis conversando entre si enquanto seus proprietários acreditavam estar simplesmente navegando.
Talvez fôssemos nós os avatares.
Talvez a verdadeira sociedade já fosse composta por perfis estatísticos negociando interesses invisíveis.
Olhei para o monitor apagado.
Durante alguns segundos tive a estranha sensação de que alguém continuava me observando.
Não havia câmera ligada.
Não havia microfone aberto.
Mesmo assim, a sensação permanecia.
Foi então que compreendi uma verdade desconfortável.
O algoritmo não precisava mais me vigiar.
Depois de tantos anos coletando meus rastros, ele aprendera a fazer algo muito mais eficiente.
Podia simplesmente prever quem eu seria amanhã.
"O dia em que as máquinas passaram a nos conhecer foi também o dia em que deixamos de perguntar quem estávamos nos tornando."
Penso que este capítulo é um ponto de inflexão do livro. Se o Capítulo II tratava da cidade invisivelmente governada pelo Logos Algorítmico, este Capítulo III revela o nascimento do "duplo digital" de Henrique. A partir daqui, o conflito deixa de ser apenas social e passa a ser ontológico: quem é o verdadeiro Henrique — o homem que vive ou o perfil que o algoritmo acredita conhecer? Esse questionamento abre naturalmente o caminho para o Capítulo IV, em que o protagonista poderá começar a confrontar esse duplo.



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