O Lobo Algorítmico - Capítulo IV - A Solidão Compartilhada
- carlospessegatti
- 9 de jul.
- 4 min de leitura

"Milhares de conexões e nenhuma intimidade."
Henrique acordou com o celular vibrando.
Não era uma mensagem importante. Nunca era.
Doze notificações.
Quatro pessoas haviam curtido uma fotografia antiga.
Três aplicativos lhe lembravam compromissos que já não faziam sentido.
Uma plataforma sugeria novos amigos.
Outra o parabenizava por completar "quinhentos dias de atividade contínua".
Ele sorriu.
Não de felicidade.
Sorriu porque percebeu que, antes mesmo de abrir os olhos completamente, alguém já disputava sua atenção.
Preparou café.
Sentou-se diante da janela.
Durante alguns minutos observou a rua.
Era cedo.
As pessoas caminhavam olhando para baixo.
Não tropeçavam porque já haviam aprendido, quase instintivamente, a dividir a atenção entre o chão e a tela.
Casais atravessavam a faixa de pedestres sem trocar uma palavra.
Pais empurravam carrinhos de bebê enquanto respondiam mensagens.
Um cachorro puxava o dono para um lado; o algoritmo, para outro.
Henrique pensou que talvez aquela fosse a verdadeira paisagem do século XXI.
Não os prédios.
Não os automóveis.
Mas milhões de consciências fragmentadas.
Ligadas.
Jamais presentes.
No escritório, o silêncio era absoluto.
Curiosamente, nunca houvera tanta comunicação.
A tela do computador piscava sem parar.
Mensagens instantâneas.
Chamadas de vídeo.
Alertas.
Reações.
Emojis.
Comentários.
Tudo acontecia ao mesmo tempo.
E, ainda assim, ninguém realmente conversava.
Quando alguém escrevia:
— Como você está?
A resposta vinha antes mesmo da pergunta ser sentida.
— Tudo ótimo!
Henrique começou a reparar nisso.
As respostas eram automáticas.
Como se todos soubessem exatamente qual personagem deveriam interpretar.
As conversas pareciam entrevistas cuidadosamente editadas.
Não havia pausas.
Não havia hesitações.
Ninguém dizia:
"Hoje estou perdido."
"Hoje tenho medo."
"Hoje não sei quem sou."
Essas frases haviam desaparecido da linguagem cotidiana.
Talvez porque não produzissem engajamento.
Naquela noite encontrou antigos amigos.
Resolveram marcar um jantar.
Fazia anos que não se viam pessoalmente.
Quando chegaram ao restaurante, todos sorriram.
Abraços.
Fotografia.
Selfie.
Outra selfie.
Mais uma para os stories.
Durante alguns segundos parecia que a amizade permanecia intacta.
Então começou o silêncio.
Cada um voltou discretamente para sua própria tela.
As conversas surgiam aos pedaços.
Interrompidas por notificações.
Por mensagens.
Por vídeos.
Por uma necessidade invisível de verificar se o mundo digital continuava existindo.
Henrique levantou os olhos.
Observou cada rosto.
Percebeu algo estranho.
Todos estavam presentes.
Mas ninguém habitava aquele instante.
Foi então que lhe ocorreu uma frase.
Talvez a mais triste que já pensara.
"Estamos reunidos apenas para provar às redes sociais que continuamos amigos."
Na volta para casa, entrou no metrô.
Ali havia centenas de pessoas.
Talvez milhares.
Nenhuma falava.
Era como uma gigantesca biblioteca.
Não de livros.
Mas de algoritmos.
Cada passageiro percorria um universo diferente.
Vídeos.
Jogos.
Notícias.
Discussões.
Influenciadores.
Mercados.
Relacionamentos.
Todos compartilhavam o mesmo vagão.
Nenhum compartilhava o mesmo mundo.
Henrique imaginou um antropólogo do futuro encontrando aquela cena.
Talvez escrevesse:
"No início do século XXI, os seres humanos desenvolveram a extraordinária capacidade de permanecer absolutamente sozinhos sem jamais estarem desacompanhados."
Chegando ao apartamento, abriu automaticamente uma rede social.
Milhares de pessoas.
Centenas de comentários.
Curtidas.
Vídeos.
Discussões intermináveis.
Sentiu um impulso estranho.
Escreveu apenas uma frase.
"Hoje estou profundamente sozinho."
Apagou antes de publicar.
Não porque tivesse vergonha.
Mas porque sabia exatamente o que aconteceria.
Receberia dezenas de corações.
Alguns emojis de abraço.
Comentários como:
"Força!"
"Tamo junto!"
"Vai dar tudo certo!"
Nenhum telefone tocaria.
Nenhum amigo bateria à porta.
Nenhuma presença substituiria a avalanche de reações.
Naquele instante compreendeu uma diferença que jamais lhe havia ocorrido.
Empatia digital não exige presença.
Presença exige tempo.
E tempo se tornou o recurso mais escasso da economia contemporânea.
Dias depois encontrou Dona Cecília, sua vizinha.
Uma senhora de quase oitenta anos.
Sentava-se todas as tardes na varanda.
Sem celular.
Sem fones.
Sem pressa.
Ela o chamou.
— Faz dias que não conversa com ninguém.
Henrique estranhou.
— Como a senhora sabe?
Ela sorriu.
— Porque ainda olho para as pessoas.
Sentaram-se.
Conversaram durante quase duas horas.
Sobre Recife.
Sobre chuva.
Sobre música.
Sobre árvores.
Sobre o marido que ela perdera havia quinze anos.
Sobre a infância.
Sobre o silêncio.
Nenhuma fotografia foi tirada.
Nenhum áudio gravado.
Nenhuma postagem feita.
Quando voltou para casa, Henrique percebeu algo curioso.
Não conseguia lembrar exatamente todas as palavras da conversa.
Mas lembrava perfeitamente da sensação.
Havia calor.
Havia pausas.
Havia humanidade.
Talvez fosse isso que os algoritmos jamais conseguissem armazenar.
Não os dados.
Mas a textura invisível da presença.
Naquela madrugada, o Perfil voltou.
Não apareceu na tela.
Nem enviou mensagens.
Henrique apenas o sentiu.
Como uma consciência silenciosa respirando atrás das estatísticas.
Então ouviu novamente aquela voz sem som.
"Você possui 3.842 conexões."
Fez-se uma pausa.
"E nenhuma delas sabe realmente quem você é."
Henrique permaneceu imóvel.
Pela primeira vez, não sentiu medo.
Sentiu luto.
Porque compreendeu que o algoritmo não havia criado aquela solidão.
Apenas aprendera a administrá-la.
E talvez esse fosse o segredo mais sombrio de toda a arquitetura digital.
Ela não substituía os vínculos humanos.
Transformava sua ausência em modelo de negócios.
Henrique desligou o celular.
Não como quem abandona a tecnologia.
Mas como quem fecha uma janela para conseguir ouvir, novamente, o próprio coração.
Lá fora, a cidade continuava iluminada.
Milhões de pequenas luzes piscavam ao mesmo tempo.
Pareciam estrelas.
Mas Henrique já sabia.
As estrelas não observam ninguém.
As telas, sim.
"Nunca estivemos tão conectados. Nunca foi tão difícil encontrar alguém verdadeiramente presente."




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