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O Lobo Algorítmico - Capítulo V — O Homem e o Algoritmo

  • carlospessegatti
  • 12 de jul.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 20 de jul.



"Metade homem, metade máquina."


Henrique comprou o caderno por acaso.


Ou pelo menos foi isso que imaginou.


Entrara numa pequena papelaria apenas para fugir da chuva.


Enquanto esperava que o temporal diminuísse, seus olhos pousaram sobre um caderno de capa preta, sem desenhos, sem logotipos, sem qualquer frase motivacional impressa.


Folhas lisas.

Nenhuma pauta.

Nenhuma orientação.


Como se dissesse silenciosamente:


"Pense por conta própria."


Comprou-o sem saber por quê.


Naquela noite deixou o celular sobre a mesa da cozinha.

Desligado.

Não em protesto.

Não como gesto simbólico.


Apenas precisava de algumas horas nas quais nenhuma notificação competisse com seus próprios pensamentos.


Abriu o caderno.


Permaneceu longos minutos olhando para a primeira página em branco.


Percebeu que fazia anos que não escrevia algo que não estivesse destinado a alguém.


Mensagens.

Relatórios.

E-mails.

Comentários.

Publicações.


Tudo possuía um destinatário.


Aquela folha era diferente.


Talvez fosse a primeira coisa que escreveria apenas para si.


Pegou a caneta.


Escreveu lentamente.


"Quem pensa em mim quando eu deixo de pensar em mim?"


Ficou olhando para a frase.


Não sabia exatamente o que significava.


Mas sentiu que ela havia encontrado o papel antes que ele encontrasse sua resposta.


Dias depois começou a reler as anotações.

Havia perguntas.

Esboços.

Setas.


Palavras isoladas.


Contradições.


Uma delas chamou sua atenção.


Escrevera apenas duas colunas.


MEMÓRIA BIOLÓGICA


MEMÓRIA DIGITAL


Na primeira anotara:

"Esquece."


Na segunda:

"Jamais esquece."


Na primeira:

"Perdoa."


Na segunda:

"Acumula."


Na primeira:

"Transforma lembranças em narrativa."


Na segunda:

"Transforma narrativas em dados."


Fechou o caderno.


Sentiu um arrepio.


Talvez estivesse comparando duas formas completamente diferentes de existir.


Durante semanas passou a observar pequenos acontecimentos.


Uma propaganda aparecia exatamente quando pensava em trocar de sapatos.


Uma plataforma sugeria um filme que parecia dialogar com uma conversa da noite anterior.


As recomendações musicais tornavam-se estranhamente precisas.


Os mapas conheciam seus caminhos habituais.


Os aplicativos lembravam aniversários que ele próprio esquecera.


Era confortável.


Assustadoramente confortável.


Pela primeira vez escreveu uma frase sem hesitar.


"O algoritmo tornou-se uma memória auxiliar da humanidade."


Parou.


Riscou a palavra "auxiliar".


Escreveu outra.

"concorrente."


Leu novamente.


Sentiu que ainda não era suficiente.


Riscou outra vez.

Depois escreveu:


"O algoritmo disputa conosco o direito de lembrar quem somos."

Dessa vez não riscou.


As semanas passaram.


Henrique começou a perceber algo ainda mais inquietante.


Não era apenas o algoritmo que aprendia com ele.


Ele também começava a aprender com o algoritmo.


Escolhia caminhos sugeridos.

Ouvia músicas recomendadas.

Lia notícias organizadas por relevância.

Aceitava palavras corrigidas automaticamente.

Confiava em mapas.

Em tradutores.

Em calendários.

Em previsões.

Em lembretes.


Até seus erros de digitação pareciam conhecidos antes de acontecer.


Naquela noite escreveu apenas uma linha.


"Talvez eu já pense acompanhado."


No domingo visitou a mãe.


Enquanto ela preparava café, encontrou uma antiga caixa de fotografias.

Papel amarelado.

Bordas gastas.

Imagens sem filtros.

Sem legendas.

Sem localização geográfica.


No verso de uma delas havia apenas uma data.

1978


Nada mais.


Henrique perguntou:

— A senhora lembra onde foi isso?


Ela sorriu.

— Não lembro o lugar.

Lembro daquele dia.


A resposta ficou ressoando dentro dele.


No caminho de volta escreveu:


"A memória humana guarda significados. A memória digital guarda ocorrências."


Fechou o caderno.


Talvez fosse essa a diferença que procurava.


Dias depois encontrou Dona Cecília novamente.


Ela regava lentamente as plantas da varanda.


Henrique comentou, quase sem perceber:

— Tenho a impressão de que estou me tornando outra pessoa.


Ela sorriu.

— Ainda bem.


Ele estranhou.

— Ainda bem?


— Só não muda quem já morreu por dentro.


A resposta permaneceu com ele durante dias.


As páginas do caderno começaram a multiplicar perguntas.


"Quando deixamos de memorizar para apenas consultar?"


"Quem escolhe aquilo que merece minha atenção?"


"Quanto das minhas decisões ainda nasce em mim?"


"Se um algoritmo consegue prever meus desejos, eles ainda são inteiramente meus?"


Uma página ficou completamente em branco.


No centro havia apenas uma frase.


"Os algoritmos sabem cada vez mais sobre mim. Eu sei cada vez menos sobre mim mesmo."


Henrique permaneceu longo tempo olhando para aquelas palavras.

Sentia que havia encontrado um ponto de partida.


Não uma conclusão.

Uma ferida.


Numa madrugada de insônia abriu o notebook.

O Perfil apareceu novamente.

Nenhuma fotografia.

Nenhum rosto.

Apenas uma presença.


Como se o sistema inteiro respirasse silenciosamente.


Pela primeira vez Henrique não sentiu medo.


Olhou para a tela e falou em voz baixa:

— Você sabe muitas coisas sobre mim.

Fez-se silêncio.


Continuou.

— Mas há uma coisa que você nunca poderá calcular.


A tela permaneceu imóvel.


Henrique sorriu discretamente.


Abriu o caderno.


Escreveu a última anotação daquela noite.


"Os dados descrevem meus comportamentos. Apenas a consciência pode lhes atribuir sentido."


Fechou o caderno.


Pela primeira vez desde que tudo começara, percebeu que não estava escrevendo uma teoria sobre algoritmos.


Estava tentando reconstruir um homem.


E esse homem era ele próprio.


Lá fora, a cidade permanecia desperta.


Milhões de pessoas caminhavam acompanhadas por seus dispositivos.


Henrique imaginou quantas delas sentiam o mesmo vazio sem conseguir nomeá-lo.


Passou os dedos sobre a capa preta do caderno.


Pensou que talvez aquele objeto não fosse apenas um caderno.


Talvez fosse um fio.


Não um fio qualquer.


Mas aquele que permite atravessar um labirinto sem esquecer o caminho de volta.



"Chega um tempo em que deixamos de usar as ferramentas. São elas que começam a desenhar a forma como nos percebemos."


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