O Lobo Algorítmico - Capítulo VII - Aprender a Desaprender
- carlospessegatti
- 20 de jul.
- 3 min de leitura

Toda transformação começa por uma pequena humilhação.
Henrique descobriu isso numa quinta-feira à tarde.
— Hoje você vem comigo.
Heloísa falava como quem anunciava uma viagem inevitável.
— Para onde?
— Você vai descobrir.
Ela tomou o metrô. Henrique a seguiu em silêncio. Depois um ônibus. Em seguida caminharam por ruas que ele jamais percorrera. Não porque fossem distantes, mas porque jamais lhe pareceram dignas de atenção.
Pararam diante de um galpão coberto por grafites.
A música podia ser ouvida do lado de fora.
Graves profundos.
Rimas improvisadas.
Centenas de jovens.
— Uma batalha de rap? — perguntou Henrique.
— Sim.
— Você sabe que eu não gosto desse tipo de ambiente.
Heloísa sorriu.
— Eu sei.
Entraram.
Henrique sentiu-se um estrangeiro.
Não compreendia a linguagem.
As roupas.
Os gestos.
Os códigos.
Tudo lhe parecia caótico.
Mas havia algo que o incomodava ainda mais.
Todos pareciam completamente vivos.
Dois jovens improvisavam versos diante de uma pequena multidão.
As palavras surgiam como relâmpagos.
Críticas sociais.
Ironias.
Humor.
Raiva.
Esperança.
Nada estava escrito.
Tudo nascia naquele instante.
Henrique cruzou os braços.
— Muito barulho.
Heloísa não respondeu.
Apenas observava os rostos.
Ao saírem dali, caminharam durante alguns minutos.
Henrique respirou aliviado.
— Finalmente.
— Finalmente o quê?
— Voltamos ao mundo.
Ela parou.
— Henrique... aquilo era o mundo.
...
Na semana seguinte, Heloísa apareceu novamente.
— Hoje.
— Não me diga...
— Feira de mangás.
Henrique fechou os olhos.
— Você está fazendo isso de propósito.
— Evidentemente.
Passaram horas observando adolescentes discutindo narrativas japonesas, desenhando personagens, construindo figurinos, criando universos inteiros.
Henrique não entendia quase nada.
Mas percebeu algo.
Ninguém ali estava consumindo passivamente.
Criavam.
Inventavam.
Misturavam referências.
Transformavam culturas.
A cidade ainda sabia produzir imaginação.
...
Vieram outros lugares.
Uma roda de samba sob um viaduto.
Uma oficina comunitária de sintetizadores modulares.
Um laboratório de bioarte.
Uma feira de robótica organizada por estudantes do ensino médio.
Uma exposição de arte digital produzida por crianças.
Uma pequena biblioteca de bairro administrada por voluntários.
Depois um campeonato de skate.
Mais tarde um grupo de idosos aprendendo programação.
Henrique perguntava sempre a mesma coisa.
— Por que estamos aqui?
E Heloísa respondia sempre da mesma forma.
— Porque você nunca viria.
...
Numa noite, sentaram-se num banco da praça.
Henrique estava cansado.
Sentia-se como alguém que aprendera uma nova língua sem perceber.
— Posso lhe fazer uma pergunta?
— Claro.
— O que exatamente você está tentando me ensinar?
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois perguntou:
— Você sabe qual é o algoritmo mais eficiente do planeta?
Henrique respondeu imediatamente.
— O das plataformas digitais.
Ela balançou a cabeça.
— Não.
Silêncio.
— O algoritmo mais eficiente é o hábito.
Henrique permaneceu olhando para ela.
— Os algoritmos digitais apenas descobriram aquilo que nossa mente faz há milhares de anos.
Ela continuou.
— Você acredita que escolhe seus livros.
Mas escolhe autores parecidos.
Acredita que escolhe suas músicas.
Mas ouve sempre as mesmas harmonias.
Acredita que conhece pessoas diferentes.
Mas conversa apenas com quem confirma aquilo em que já acredita.
Henrique baixou os olhos.
Ela prosseguiu.
— Você condenou os algoritmos das máquinas...
...mas nunca percebeu o algoritmo que construiu dentro de si.
O vento atravessou a praça.
Havia crianças brincando.
Um cachorro corria atrás de uma bola.
Um casal dançava ao longe, embalado por um músico de rua.
Tudo parecia inesperadamente simples.
— Você sabe por que os algoritmos aprendem tão rápido? — perguntou Heloísa.
Henrique permaneceu em silêncio.
— Porque conseguem abandonar um modelo quando ele deixa de funcionar.
Ela sorriu.
— Os seres humanos fazem exatamente o contrário.
Agarram-se às próprias certezas.
Chamam isso de identidade.
Henrique respirou profundamente.
Pela primeira vez desde que iniciara sua investigação sobre a cidade algorítmica, teve a estranha sensação de que talvez não estivesse apenas estudando um novo mundo.
Talvez estivesse aprendendo a nascer novamente.
Enquanto caminhavam de volta, a cidade parecia exatamente a mesma.
As ruas.
Os edifícios.
Os painéis luminosos.
Os rostos iluminados pelas telas.
Nada havia mudado.
Exceto uma única coisa.
Henrique já não caminhava procurando confirmar suas teorias.
Caminhava disposto a encontrar aquilo que ainda não sabia procurar.
"A liberdade não começa quando desligamos as máquinas. Começa quando desaprendemos os mapas que desenhamos para nós mesmos."


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