O Lobo Algorítmico - Capítulo VIII - Dançando entre Fantasmas
- carlospessegatti
- 24 de jul.
- 3 min de leitura

Não porque não gostasse de música. Pelo contrário. Sua casa era povoada por Bach, Coltrane, Pink Floyd, Debussy, Milton Nascimento, Arvo Pärt. Mas escutava tudo como quem contempla um quadro num museu: imóvel, respeitoso, distante.
A música deixara de atravessar seu corpo.
Transformara-se em objeto de análise.
Naquela sexta-feira, Heloísa apareceu sem avisar.
— Hoje você vem comigo.
Henrique suspirou.
— Para mais uma exposição de arte contemporânea?
— Não.
— Cinema?
Ela sorriu.
— Muito pior.
Pegou a chave do carro sobre a mesa.
— Vamos dançar.
Henrique riu alto.
— Você perdeu completamente o juízo.
— Faz anos que você perdeu o seu corpo.
O lugar não era uma boate.
Nem um clube sofisticado.
Era um antigo galpão industrial, transformado em espaço cultural. Não havia mesas reservadas, camarotes ou telas luminosas gigantes.
Havia luzes discretas.
Projetores desenhando formas lentas nas paredes.
E música.
Muita música.
Mas não era música para consumo.
Era música para permanência.
Longos drones eletrônicos misturavam-se ao som de instrumentos acústicos, percussões africanas, sintetizadores modulares, vozes processadas e pequenos silêncios cuidadosamente preservados.
Henrique estranhou.
Aquilo parecia mais uma instalação sonora do que uma festa.
As pessoas dançavam de olhos fechados.
Sem coreografias.
Sem selfies.
Sem preocupação estética.
Cada corpo parecia conversar com uma música diferente.
— O que é isto? — perguntou.
— Escuta.
— Eu estou escutando.
— Não.
Heloísa respondeu sorrindo.
— Você ainda está pensando.
Durante vários minutos permaneceram imóveis.
Henrique observava tudo como fazia diante de qualquer fenômeno social.
Catalogava.
Comparava.
Interpretava.
Criava hipóteses.
Até perceber que ninguém ali parecia interessado em interpretar coisa alguma.
A música não queria significar.
Queria acontecer.
Foi então que Heloísa lhe estendeu a mão.
— Fecha os olhos.
— Não.
— Confia.
Ele respirou fundo.
Fechou.
O primeiro impulso foi procurar a estrutura da composição.
Qual era o compasso?
Onde estava o tema principal?
Qual sintetizador produzia aquele timbre?
Depois percebeu que essas perguntas começavam a desaparecer.
Restava apenas uma pulsação grave.
Muito grave.
Como um coração antigo.
Ela parecia vir do chão.
Ou talvez do próprio peito.
Seu corpo começou a responder antes que sua inteligência autorizasse.
Primeiro um leve movimento dos ombros.
Depois das mãos.
Depois da respiração.
Não era dança.
Era lembrança.
Como se músculos esquecidos recuperassem uma língua que haviam aprendido na infância.
Henrique abriu os olhos.
As pessoas continuavam dançando.
Mas agora lhe pareciam diferentes.
Não eram consumidores.
Nem perfis.
Nem estatísticas.
Eram organismos.
Corpos.
Presenças.
Naquele instante compreendeu algo que jamais encontrara em nenhum livro de filosofia.
O algoritmo compreendia perfeitamente nossos gostos.
Mas desconhecia completamente nosso peso.
Não sabia como um corpo hesita.
Como tropeça.
Como respira.
Como desacelera.
Como improvisa.
Talvez por isso tentasse converter todas as pessoas em previsões.
Era muito mais fácil calcular dados do que movimentos imprevisíveis.
Ao final da noite, sentaram-se na calçada.
O silêncio entre eles era confortável.
Henrique olhava as pessoas deixando lentamente o galpão.
Algumas sorriam.
Outras caminhavam sozinhas.
Nenhuma parecia ter pressa de consultar o telefone.
Depois de muito tempo, falou:
— Acho que hoje aconteceu uma coisa estranha.
— O quê?
— Pela primeira vez em muitos anos...
Fez uma pausa.
— ...esqueci de mim.
Heloísa sorriu.
— Não.
Você apenas parou de conversar com os seus fantasmas.
Henrique permaneceu olhando a cidade.
As luzes dos prédios continuavam as mesmas.
Os anúncios continuavam brilhando.
Os algoritmos continuavam trabalhando silenciosamente.
Nada havia mudado.
Exceto uma pequena coisa.
Pela primeira vez em muito tempo, ele sentia vontade de voltar para casa e ouvir música não para compreendê-la.
Mas para habitá-la.
Caderno de Henrique
"Talvez a tecnologia tenha conquistado nossas escolhas porque primeiro conquistou nossa imobilidade.
Um corpo que dança produz movimentos que nenhum algoritmo consegue antecipar.
A liberdade talvez comece exatamente onde o corpo deixa de obedecer ao roteiro da mente."
Reflexões do autor
Acho que este é um daqueles capítulos que mudam o eixo do romance. Até aqui, Henrique resistia ao mundo. A partir daqui, ele começa a reencontrar aquilo que o mundo digital havia lhe roubado: o corpo, o ritmo, a experiência estética vivida. Isso prepara o terreno para os capítulos finais, em que a transformação dele deixa de ser apenas intelectual e passa a ser existencial.


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