O Lobo Algorítmico - Capítulo X - O Convite
- carlospessegatti
- 30 de jul.
- 3 min de leitura

Capítulo X — O Convite
A notificação surgiu às 3h33 da madrugada.
Henrique não ouviu qualquer som. O celular permanecia no modo silencioso desde a semana anterior, quando decidira reduzir a avalanche de mensagens que insistiam em disputar cada segundo de sua atenção. Ainda assim, despertou subitamente, como se alguém houvesse pronunciado seu nome dentro de um sonho.
Abriu os olhos.
O quarto permanecia mergulhado na penumbra.
A tela do telefone, sobre a mesa, emitia uma luz azulada.
Nenhum toque.
Nenhuma vibração.
Apenas luz.
Levantou-se lentamente.
Na tela existia somente uma mensagem.
Não havia remetente.
Não havia fotografia.
Não havia número.
Apenas um link.
Acima dele, uma única frase.
TEATRO DOS ALGORITMOS
Entrada apenas para aqueles que perderam a si mesmos.
Henrique permaneceu imóvel durante alguns segundos.
Sorriu.
— Mais uma fraude...
Pensou em apagar a mensagem.
Mas havia algo desconcertante.
O aplicativo pelo qual ela chegara simplesmente não existia em seu telefone.
Percorreu a tela inicial.
Nada.
Buscou na lista de aplicativos.
Nada.
Mesmo assim, a mensagem permanecia ali.
Tentou capturar a tela.
A imagem saiu completamente preta.
Respirou fundo.
Durante semanas, estudara os mecanismos invisíveis da cidade.
Aprendera que os algoritmos conheciam hábitos.
Prediziam desejos.
Organizavam encontros.
Modelavam opiniões.
Mas aquilo parecia diferente.
Era como se, pela primeira vez, alguém estivesse do outro lado.
Observando.
Esperando.
Chamando.
Ainda hesitante, aproximou o dedo do link.
Não tocou.
Retirou a mão.
Sentou-se na cama.
"Quem enviaria algo assim?"
Nenhum amigo.
Nenhum colega.
Nenhum perfil conhecido.
No entanto, havia um detalhe perturbador.
A mensagem terminava exatamente com a expressão que ele escrevera em seu caderno naquela tarde.
"Perdi alguma parte de mim nesta cidade."
Jamais publicara aquela frase.
Jamais a enviara.
Jamais a digitara em qualquer dispositivo.
Escrevera apenas com tinta.
Num velho caderno de papel.
Sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Durante alguns minutos caminhou pelo apartamento tentando convencer-se de que tudo possuía uma explicação racional.
Talvez a memória o estivesse traindo.
Talvez tivesse fotografado a página.
Talvez algum aplicativo tivesse reconhecido sua caligrafia.
Talvez...
Mas havia um problema.
O caderno permanecia fechado na estante desde a manhã.
Nunca fora fotografado.
Henrique olhou novamente para a tela.
O link continuava esperando.
Como uma porta.
Ou uma armadilha.
Desta vez tocou.
A tela ficou completamente branca.
Nenhum carregamento.
Nenhuma barra de progresso.
Nenhum logotipo.
Apenas um fundo branco.
Depois, lentamente, letras negras começaram a surgir como se fossem escritas naquele instante.
"Bem-vindo."
Silêncio.
Outra frase apareceu.
"Você acredita que procura respostas."
Uma terceira.
"Na verdade, sempre procurou espectadores."
Henrique franziu a testa.
As palavras prosseguiam.
"Toda pessoa contemporânea aprende cedo a representar."
"Você possui um perfil profissional."
"Um perfil social."
"Uma versão cordial."
"Uma versão indignada."
"Uma versão intelectual."
"Uma versão silenciosa."
"Qual delas acredita ser você?"
Ele não respondeu.
Nem poderia.
A página não oferecia campos de texto.
Mesmo assim, novas frases continuavam surgindo.
Como se alguém estivesse ouvindo seus pensamentos.
"O Teatro dos Algoritmos apresenta diariamente oito bilhões de protagonistas."
"Cada um acredita improvisar."
"Cada gesto já foi previsto."
"Cada emoção possui métricas."
"Cada dúvida produz dados."
"Cada revolta alimenta o roteiro."
Henrique sentiu um frio inesperado.
Era como ler uma peça escrita especificamente para ele.
Então apareceu a última mensagem.
Muito menor que todas as anteriores.
"O espetáculo começa amanhã."
"Você já ocupa seu lugar desde o nascimento."
A tela apagou.
Tudo desapareceu.
Nenhum histórico.
Nenhuma página aberta.
Nenhum registro no navegador.
O link simplesmente deixara de existir.
Henrique tentou encontrá-lo novamente.
Nada.
Como se jamais tivesse sido enviado.
Permaneceu olhando para o reflexo escuro da tela.
Pela primeira vez desde que começara a investigar a cidade invisível, compreendeu que talvez tivesse cometido um erro fundamental.
Sempre acreditara observar o sistema.
Nunca imaginara que o sistema estivesse, desde o início, dirigindo a peça.
Lá fora, o amanhecer começava a dissolver a noite.
Os primeiros ônibus cruzavam as avenidas.
As cafeterias abriam suas portas.
As pessoas caminhavam olhando para seus telefones.
Nenhuma delas parecia perceber.
Mas Henrique já não conseguia enxergar a cidade da mesma maneira.
As ruas deixaram de parecer ruas.
Transformaram-se em corredores.
As vitrines, em cenários.
Os semáforos, em marcações de palco.
As telas luminosas dos edifícios pareciam refletores apontados para uma multidão de atores que desconheciam o próprio papel.
Ele respirou profundamente.
Pela primeira vez, a metáfora que o perseguia desde o início tornava-se quase insuportavelmente concreta.
Talvez o mundo inteiro fosse um teatro.
Mas não um teatro onde seres humanos representavam diante de outros seres humanos.
Era um teatro em que algoritmos escreviam o roteiro, distribuíam os personagens, escolhiam os figurinos digitais, decidiam os encontros, os conflitos, os amores, os medos e até mesmo os aplausos.
E a pergunta que começava a nascer dentro dele era infinitamente mais perturbadora do que o estranho convite.
Quem ocupava a plateia?



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