O Lobo Algorítmico - Capítulo IX - O Programador
- carlospessegatti
- 27 de jul.
- 3 min de leitura

"Toda linguagem cria um mundo. Quem domina uma linguagem invisível passa a habitar um mundo invisível."
Henrique encontrou Pablo numa noite chuvosa de quinta-feira.
Não houve apresentação formal.
Nenhum cartão de visitas.
Nenhum currículo.
Apenas uma música.
Era um pequeno auditório improvisado num antigo galpão industrial, onde sintetizadores modulares ocupavam o lugar que, décadas antes, pertencera às máquinas de uma fábrica metalúrgica.
Cabos coloridos atravessavam mesas como cipós eletrônicos.
Luzes discretas piscavam ao ritmo de sequenciadores.
O público permanecia em silêncio.
Não havia canções.
Não havia refrões.
Apenas paisagens sonoras.
Henrique entrou por curiosidade.
Saiu transformado.
No centro da sala, um homem de barba grisalha manipulava lentamente alguns módulos analógicos.
Cada gesto alterava o universo acústico.
Não parecia executar música.
Parecia conversar com ela.
Ao final da apresentação, Henrique aproximou-se.
— Nunca ouvi nada parecido.
O homem sorriu.
— Ainda bem.
Henrique estranhou a resposta.
— Ainda bem?
— Se você tivesse ouvido algo parecido, eu teria fracassado.
Pablo desligou lentamente o último sintetizador.
O silêncio permaneceu suspenso no ambiente.
— Você trabalha com música?
— Tento.
— E com computadores?
Pablo riu.
— Também tento.
Os dois caminharam até uma pequena cafeteria aberta naquela esquina.
Sobre a mesa repousavam dois cafés e um notebook repleto de adesivos de linguagens de programação.
Henrique percebeu um pequeno adesivo onde se lia:
Everything is Code.
— Você é programador?
— Sim.
— E músico?
— Também.
Henrique fez a pergunta que lhe parecia inevitável.
— Como consegue conciliar duas profissões tão diferentes?
Pablo permaneceu alguns segundos observando a espuma do café.
— Talvez porque elas nunca tenham sido diferentes.
Henrique permaneceu em silêncio.
— Quando escrevo um programa, organizo relações.
Quando componho uma música, organizo relações.
Quando desenvolvo uma inteligência artificial, organizo relações.
Quando improviso num sintetizador modular...
...continuo organizando relações.
A diferença está apenas na matéria.
Henrique sentiu um desconforto difícil de explicar.
Aquela frase parecia ecoar algo que vinha tentando compreender havia meses.
Pablo continuou.
— As pessoas imaginam que o computador pensa em números.
Não.
Ele pensa em estruturas.
Assim como a música.
Assim como a linguagem.
Assim como o mercado.
Assim como a política.
Assim como as redes sociais.
Henrique lembrou-se imediatamente do Perfil que o observava.
Do anúncio que aparecia antes mesmo de desejar um produto.
Da sensação constante de que alguém parecia antecipar seus pensamentos.
Pablo percebeu.
— Você já começou a enxergar, não foi?
Henrique não respondeu.
— Quando isso acontece, não há retorno.
Durante muito tempo acreditamos viver numa sociedade feita de pessoas.
Hoje vivemos numa sociedade feita de modelos.
Modelos econômicos.
Modelos estatísticos.
Modelos comportamentais.
Modelos preditivos.
Henrique perguntou em voz baixa:
— E quem cria esses modelos?
Pablo sorriu.
— Programadores.
Mas não apenas programadores.
Economistas.
Psicólogos.
Engenheiros.
Especialistas em marketing.
Governos.
Empresas.
Todos escrevendo pequenas partes de um mesmo sistema.
Henrique olhou pela janela.
A chuva refletia os letreiros luminosos da cidade.
Pela primeira vez, aquelas luzes pareciam menos inocentes.
Pablo abriu o notebook.
Na tela apareceu apenas uma janela preta.
Nenhuma imagem.
Nenhum gráfico.
Somente linhas de texto.
— Está vendo isto?
Henrique assentiu.
— Daqui surgem aplicativos.
Redes sociais.
Sistemas bancários.
Carros autônomos.
Modelos de inteligência artificial.
Tudo começa assim.
Algumas linhas invisíveis.
Depois, o mundo inteiro passa a obedecê-las.
Fechou o computador.
Olhou diretamente para Henrique.
— A verdadeira infraestrutura do século XXI não é feita de concreto.
É feita de código.
Henrique permaneceu imóvel.
Naquele instante compreendeu que as cidades continuavam parecendo cidades.
Mas, por trás delas, existia outra arquitetura.
Uma arquitetura invisível.
Escrita numa linguagem que quase ninguém sabia ler.
E foi nesse momento que Henrique percebeu que acabara de conhecer alguém muito mais perigoso do que qualquer algoritmo.
Conhecera alguém que compreendia como eles eram construídos.


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