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O Lobo Algorítmico - Capítulo II - A Cidade das Telas

  • carlospessegatti
  • 3 de jul.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 20 de jul.



A Cidade das Telas


Na manhã seguinte, saí para caminhar.


Não porque tivesse um destino. Mas porque precisava verificar se a inquietação que me atravessara na noite anterior era apenas um delírio privado ou o sintoma de alguma transformação mais profunda.


A cidade despertava.


Os ônibus passavam lotados.


As cafeterias já recebiam seus primeiros clientes.


O metrô engolia milhares de pessoas por minuto.


Tudo parecia funcionar perfeitamente.


Talvez até melhor do que nunca.


Nunca houve tanto conforto.


Nunca houve tanta velocidade.


Nunca houve tanta informação.


E, paradoxalmente, nunca vi tantos rostos ausentes.


Sentei-me num café.


Não havia silêncio.


Também não havia conversa.


Casais dividiam a mesma mesa sem trocar palavras.


Amigos sorriam para telas, não uns para os outros.


Uma criança tentava mostrar um desenho ao pai, que respondia automaticamente:

— Só um instante...


O instante nunca chegava.


Levantei os olhos.


Percebi que ninguém realmente olhava para o espaço ao redor.


Todos habitavam uma realidade paralela.


A cidade física tornara-se apenas um suporte para outra cidade, invisível.


Uma cidade feita de notificações.


De algoritmos.


De vídeos curtos.


De mensagens instantâneas.


De estímulos cuidadosamente organizados para impedir qualquer intervalo.


O corpo permanecia aqui.

A consciência, não.


Continuei andando.


No metrô, centenas de passageiros permaneciam imóveis.


O silêncio era quase religioso.


Não aquele silêncio fértil das bibliotecas ou dos templos.


Era um silêncio hipnótico.


Cada rosto iluminado pela luz azul do telefone lembrava uma vela acesa diante de um altar invisível.


Ninguém observava a paisagem.


Ninguém percebia quem entrava ou saía.


Os corpos viajavam juntos.


As mentes viajavam sozinhas.


Ali compreendi uma diferença importante.

Solidão não é estar sozinho.

Solidão é deixar de compartilhar a realidade.


Hoje milhões convivem fisicamente enquanto habitam universos completamente distintos, organizados por algoritmos que escolhem o que cada um verá, desejará, odiará e defenderá.


Cada indivíduo acredita estar olhando para o mundo.


Na verdade, observa apenas o fragmento que uma máquina selecionou para ele.


Foi então que pensei:

Talvez não vivamos mais numa sociedade.


Vivemos em bilhões de sociedades particulares.


Cada uma construída por recomendações automáticas.


Cada uma incapaz de compreender a outra.


As antigas praças desapareceram.


Elas foram substituídas por feeds personalizados.


A praça obrigava ao encontro.


O algoritmo promove apenas o reflexo.


Seguimos pessoas que pensam como nós.


Consumimos opiniões que confirmam nossas certezas.


O diferente deixa de existir.


E quando aparece, surge apenas como inimigo.

Não há diálogo.

Há engajamento.

Não há escuta.

Há reação.

Não há pensamento.

Há desempenho.


Continuei caminhando.


Cruzei um parque.


Havia árvores magníficas.


Pássaros.


O vento movia lentamente as folhas.


Pouquíssimas pessoas levantavam os olhos.


Algumas fotografavam o pôr do sol.


Nenhuma parecia contemplá-lo.


O importante não era viver o momento.


Era registrá-lo.


Mais precisamente:


Era demonstrar que o momento havia sido vivido.


A experiência tornara-se prova.


Não memória.


Lembrei-me de um antigo fotógrafo que dizia que toda fotografia é também uma ausência.


Aquilo fazia sentido.


Quanto mais registrávamos a vida, menos parecíamos habitá-la.


As imagens acumulavam-se.


As lembranças enfraqueciam.


Percebi então outra inversão curiosa.


No passado, escrevíamos diários para recordar.


Hoje produzimos conteúdos para sermos vistos.


Nossa memória foi terceirizada.


Nossos afetos também.


Os aniversários são lembrados por aplicativos.


As amizades são medidas por interações.


O amor depende de confirmações digitais.


Até o luto passou a ser administrado por notificações.


A cidade continuava viva.

Mas era uma vida estranhamente automatizada.


Observei uma jovem atravessando uma avenida movimentada.


Ela caminhava olhando apenas para o celular.


Os pés conheciam o caminho.


A atenção estava em outro lugar.


Foi quando compreendi algo inquietante.


O algoritmo já não precisava controlar nossos corpos.


Bastava administrar nossa atenção.

Quem controla a atenção controla o tempo.

Quem controla o tempo molda a memória.

Quem molda a memória transforma a identidade.


Talvez seja por isso que tantos já não saibam exatamente quem são.


Mudam de opinião com velocidade.


Mudam de indignação.


Mudam de desejos.


Mudam até de personalidade conforme muda o fluxo da tela.


A identidade tornou-se líquida.


Não porque conquistamos liberdade.


Mas porque deixamos de possuir um centro.


Cheguei à praça principal.


Ali havia um enorme painel eletrônico.

Publicidade.

Notícias.

Vídeos.

Propagandas.

Tudo se misturava.


Pensei que talvez a própria cidade estivesse aprendendo a pensar como um algoritmo.


Tudo precisava competir pela atenção.


Nada podia permanecer imóvel.


O silêncio tornara-se um fracasso comercial.


A lentidão, um defeito.


A contemplação, uma perda de produtividade.


Foi então que uma pergunta surgiu com força inesperada.


E se o problema não fosse o excesso de tecnologia?


E se fosse a ausência de distância crítica diante dela?


Afinal, o fogo também transformou a humanidade.

A escrita.

A imprensa.

A eletricidade.


Todas alteraram profundamente nossa forma de existir.


Nenhuma, entretanto, passou tanto tempo observando seus usuários quanto as plataformas digitais observam cada um de nós.


Nunca uma tecnologia conheceu tão profundamente seus próprios consumidores.


Ela sabe quando acordamos.

Quando hesitamos.

Quando nos entristecemos.

Quando desejamos comprar.

Quando estamos vulneráveis.


Quando podemos ser convencidos.


Enquanto caminhava de volta para casa, compreendi que a cidade permanecia exatamente onde sempre estivera.


Quem desaparecera dela éramos nós.


Os edifícios continuavam ali.

As árvores também.

As praças.

Os bancos.

Os monumentos.

Mas os habitantes pareciam ter migrado para um território invisível.


Um território sem geografia.

Sem céu.

Sem horizonte.


Um território onde tudo acontecia diante dos olhos, mas quase nada permanecia dentro da consciência.


Naquela tarde, pela primeira vez, dei um nome ao lugar onde vivíamos.


Não era apenas uma cidade.


Era a Cidade das Telas.


E tive a desconfortável impressão de que seus verdadeiros prefeitos já não eram homens.


Eram algoritmos.



"Quando todos olham para a mesma tela, o mundo deixa de ser um lugar e passa a ser um reflexo."



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