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Quando a consciência abre as portas do invisível

carlospessegatti
12 de out.
15 min de leitura


Um olhar sobre Entre Dois Rios e Nenhum Tempo — A Conspiração Aurora
Há narrativas que contam uma história. Outras, sem deixar de contar uma história, conduzem-nos até os limites daquilo que conseguimos compreender sobre a existência. São obras que, sob a superfície dos acontecimentos, parecem guardar uma segunda realidade: não necessariamente um outro mundo, separado daquele em que vivemos, mas uma dimensão mais profunda do próprio mundo, que permanece oculta enquanto o cotidiano nos mantém presos à familiaridade das coisas.
Entre Dois Rios e Nenhum Tempo — A Conspiração Aurora parece pertencer a essa segunda categoria. O que torna uma narrativa verdadeiramente filosófica não é a presença explícita de conceitos, nem a intenção de demonstrar uma tese sobre a vida, o Universo ou a consciência. Sua profundidade pode residir justamente no contrário: na capacidade de suscitar perguntas que nenhuma explicação consegue encerrar.
A literatura alcança, então, um território em que a experiência precede a compreensão, e o leitor é convidado a sentir o peso de um mistério antes mesmo de encontrar palavras para formulá-lo. Talvez seja esse um dos aspectos mais instigantes desta obra.
Vivemos habitualmente convencidos de que a realidade corresponde àquilo que conseguimos perceber, organizar e explicar. As coisas possuem nomes, os lugares têm funções, os acontecimentos ocupam posições reconhecíveis na sequência do tempo. A consciência cotidiana constrói, assim, uma espécie de mapa do mundo, indispensável à nossa sobrevivência e à nossa orientação. Entretanto, o mapa não é o território, e aquilo que conseguimos reconhecer não representa necessariamente tudo o que somos capazes de experimentar.
Há momentos em que essa organização habitual parece se desfazer. Uma paisagem conhecida adquire uma profundidade inesperada. Uma lembrança deixa de ser apenas a evocação de algo que aconteceu e passa a nos colocar diante de uma presença. O tempo, que normalmente percebemos como uma sucessão ordenada de instantes, parece contrair-se, expandir-se ou perder sua direção habitual. O mundo permanece diante de nós, mas já não se apresenta da mesma maneira.
Nessas ocasiões, não é necessário que a realidade material se transforme para que a experiência da realidade se torne radicalmente diferente.
É a própria consciência que se modifica. Essa possibilidade atravessa a história da filosofia, da mística e da criação artística. O que chamamos de transcendência talvez não precise ser compreendido, desde o primeiro momento, como uma fuga para além do mundo concreto. Pode também designar uma abertura: a experiência pela qual descobrimos que nossa maneira habitual de perceber a existência não esgota as possibilidades de nossa relação com ela.
Não se trata de afirmar que a consciência, ao se transformar, comprove a existência de uma realidade sobrenatural. Trata-se de reconhecer algo mais próximo e, ao mesmo tempo, profundamente misterioso: o mundo que vivemos não é constituído apenas por aquilo que existe diante de nós, mas também pela maneira como nele estamos presentes.
O sagrado pode surgir justamente nesse intervalo entre o que existe e o que se revela.
Talvez por isso certas experiências nos comovam de uma maneira que ultrapassa a explicação intelectual. Não sabemos inteiramente o que aconteceu, mas sentimos que alguma coisa essencial se tornou perceptível. A experiência parece exceder as palavras que poderiam descrevê-la. Não necessariamente porque contenha uma resposta definitiva para os enigmas da existência, mas porque nos coloca diante deles com uma intensidade que a rotina havia amortecido.
A literatura possui uma relação privilegiada com essa abertura. Por meio da imaginação, ela pode criar situações nas quais nossas certezas habituais perdem sua estabilidade. Personagens, lugares, memórias e acontecimentos deixam de ser apenas elementos de uma trama e passam a funcionar como limiares entre diferentes maneiras de experimentar o real. O leitor não recebe simplesmente uma interpretação pronta: é conduzido a uma experiência cujo significado precisa descobrir por si mesmo.
É importante, porém, não confundir mistério com obscuridade, nem profundidade com a necessidade de encontrar uma explicação oculta para cada acontecimento.
Uma obra pode ser filosoficamente poderosa justamente porque não resolve as perguntas que suscita. Seu valor reside, então, na capacidade de modificar o modo como olhamos para aquilo que julgávamos conhecer. Há ainda uma dimensão particularmente fascinante nesse processo: às vezes, o próprio escritor só reconhece plenamente as possibilidades de sua obra muito tempo depois de tê-la criado.
A escrita nasce de uma determinada experiência, de uma imaginação situada no tempo e de uma consciência que, naquele momento, dispõe de certos recursos para compreender o que está produzindo. Mas o texto permanece. A vida continua. O autor acumula outras experiências, modifica suas convicções e desenvolve novas maneiras de interpretar a existência. Quando retorna à própria obra, já não é exatamente o mesmo que a escreveu. E aquilo que antes parecia conhecido pode revelar sentidos inesperados. O texto não precisa ter mudado. O leitor mudou. Esse reencontro pode produzir algo extraordinário: a descoberta de que uma narrativa continha possibilidades de significado que seu próprio autor ainda não havia reconhecido inteiramente.
A obra passa a devolver ao escritor algo que ele, sem saber, havia depositado nela. A criação transforma-se em descoberta, e a leitura torna-se uma forma de autoconhecimento.
É nesse ponto que a experiência de ler uma obra própria pode adquirir uma dimensão quase vertiginosa. O escritor reconhece suas palavras, sua imaginação e suas escolhas, mas percebe que o significado alcançado por elas ultrapassa sua intenção inicial. Como se a criação tivesse conquistado uma autonomia que lhe permite revelar, em outro momento, aquilo que o próprio ato de escrever ainda não conseguia tornar plenamente consciente. Talvez não exista contradição nisso. A consciência humana não conhece inteiramente a si mesma, e a criação artística é uma das maneiras pelas quais ela pode encontrar, fora de si, formas capazes de lhe devolver aspectos ainda não reconhecidos de sua própria experiência.
Em Entre Dois Rios e Nenhum Tempo — A Conspiração Aurora, essa possibilidade convida a uma leitura que não se limite à sequência dos acontecimentos. Há algo a investigar na relação entre memória e presença, entre o tempo vivido e o tempo recordado, entre a realidade que reconhecemos e aquela que parece surgir quando nossa percepção habitual se transforma.
Os rios, a cidade, as lembranças e as circunstâncias concretas da narrativa podem ser lidos em sua materialidade, mas também como elementos de uma experiência mais ampla, na qual a fronteira entre o familiar e o extraordinário se torna menos rígida. O cotidiano não precisa desaparecer para que o mistério se manifeste. Pode ser justamente nele, por meio dele, que o mistério encontre sua forma.
Talvez a pergunta fundamental não seja se existe uma realidade escondida por trás da realidade concreta, como se uma delas precisasse excluir a outra. Talvez seja perguntar quantas maneiras de experimentar o real permanecem disponíveis à consciência humana e quantas delas jamais alcançamos enquanto nos mantemos encerrados em nossos hábitos perceptivos. Não temos uma resposta definitiva para essa questão. E talvez não devamos exigir que a literatura a forneça.
Há experiências cuja importância não depende de uma explicação conclusiva. Elas nos transformam porque alteram a maneira como nos relacionamos com o mundo, com os outros e com a própria existência. Depois delas, as coisas podem continuar exatamente onde estavam, mas já não somos capazes de percebê-las com a mesma indiferença.
É possível que a transcendência comece aí: não quando abandonamos o mundo, mas quando deixamos de acreditar que já o conhecemos inteiramente. Se esta narrativa conseguir conduzir o leitor até esse limiar, terá realizado algo que ultrapassa o simples ato de contar uma história. Terá aberto um espaço no qual a imaginação se encontra com a filosofia, a memória com a consciência e a experiência cotidiana com a possibilidade do sagrado. E talvez o mais belo seja que esse espaço não precise ser atravessado por todos da mesma maneira. Cada leitor chegará a ele com sua própria história, suas perguntas e suas possibilidades de percepção.
Alguns encontrarão uma narrativa envolvente. Outros reconhecerão questões sobre o tempo, a identidade e os limites do conhecimento. Outros, ainda, poderão experimentar a sensação de que, por alguns instantes, a realidade se tornou mais vasta do que parecia ser. Não cabe a estas páginas determinar qual dessas leituras é a correta. Cabe-lhes apenas sugerir que, por vezes, uma obra literária não nos oferece um mundo novo: oferece-nos a possibilidade de olhar de outra maneira para o mundo que já existe.
E, quando isso acontece, talvez descubramos que a realidade não se esgota naquilo que conseguimos ver, assim como a existência não se esgota naquilo que conseguimos explicar.
Entre os rios que atravessam a paisagem e o tempo que atravessa a consciência, permanece a possibilidade de um encontro com aquilo que, embora não possamos definir inteiramente, somos capazes de sentir como presença.
É nesse território, entre o que conhecemos e o que ainda nos escapa, que esta narrativa convida o leitor a entrar.
Atena Cybele - Interlocutora filosófica sobre literatura, consciência e existência

As reflexões que antecedem esta narrativa nasceram de uma releitura que revelou possibilidades de interpretação até então insuspeitadas. Mas nenhuma reflexão pode substituir a experiência da leitura, nem antecipar tudo aquilo que uma obra é capaz de despertar. É agora que o leitor poderá percorrer seu próprio caminho, entre os acontecimentos narrados e os sentidos que talvez se escondam sob a superfície da história.


O que se segue não pretende comprovar uma tese, mas oferecer uma experiência. Porque, às vezes, é a própria literatura que nos permite perceber aquilo que a linguagem conceitual apenas consegue aproximar.



Entre dois Rios e Nenhum Tempo

A Conspiração Aurora


Encontro dos rios Capibaribe e Beberibe visto da Rua da Aurora - Recife - PE



— Plano TXT em ação!


Foi essa a senha, quase solene, que ouvi ao telefone por volta das onze da noite, numa primavera qualquer que ainda hoje insiste em não envelhecer dentro de mim.


O telefone ficava estrategicamente ao lado do meu chefe — o lendário Mestre Timba — soberano absoluto daquela sala de digitação no oitavo andar do prédio do Bandepe, no Recife Antigo. Dali ele regia, com olhar atento e uma paciência quase burocrática, o balé mecânico das teclas e dos números.


Eu cumpria o turno da noite — das sete da noite à uma da madrugada — naquela rotina de códigos, cheques, fichas e dados que, àquela altura da vida, já nos parecia excessivamente comportada para o tanto de inquietação que carregávamos.


Mas naquela noite, havia um plano.


Eu e Ciro havíamos combinado, com a seriedade própria das grandes conspirações inúteis, escapar mais cedo do trabalho.

O destino: as margens do Capibaribe, naquele ponto em que ele encontra o Beberibe — uma confluência silenciosa, onde as águas pareciam hesitar por um instante antes de seguir. 


Ciro, naquele tempo, trabalhava no Banco Nacional do Norte — ironicamente ocupando a vaga que um dia fora minha. Seu turno começava antes do meu, às seis da tarde, e terminava à meia-noite. A engenharia do plano previa precisão: ele sairia uma hora antes, eu duas.


E então veio o toque de genialidade — ou de irresponsabilidade, dependendo do ponto de vista.


O tal Plano TXT consistia numa pequena encenação telefônica: um de nós ligaria para o outro, assumindo o papel de um cunhado aflito, enviado pelas esposas, anunciando uma emergência doméstica irrefutável — uma filha recém-nascida com febre alta, resistente a qualquer medicamento.


Era impossível competir com um drama desses.


De posse da notícia, aproximei-me de Mestre Timba com a gravidade de um ator em sua melhor cena. Expliquei a situação, carregando na voz o peso da urgência. Ele, humano como normalmente se permitia ser, autorizou minha saída imediata.


Atravessei a velha ponte Maurício de Nassau com uma leveza que não combinava em nada com o drama recém-encenado. Ao chegar à pracinha dos Diários — onde o Diário de Pernambuco observava tudo com sua habitual indiferença — encontrei um orelhão próximo à Av. Dantas Barreto, local onde ficava a agência matriz do Banorte. Ali, cumpri meu papel na engrenagem da farsa: liguei para Ciro e repeti, com igual dramaticidade, o mesmo roteiro.


Minutos depois, ele surgiu — não com a expressão aflita de um pai desesperado, mas com um sorriso que entregava tudo.


Sem trocar muitas palavras, pegamos um táxi logo no início da Avenida Guararapes e seguimos para o bairro da Encruzilhada. Havia ainda um detalhe essencial naquele ritual: a parada obrigatória na lendária Farmácia dos Pobres, aberta madrugada adentro, atendendo por uma fresta na porta, como se vendesse segredos em vez de remédios.


Ali, adquirimos nosso insubstituível companheiro de jornada: o xarope Pambenyl.

De posse do “elixir”, retornamos no mesmo táxi — agora não mais fugitivos, mas exploradores oficialmente descompromissados com qualquer responsabilidade imediata.


Destino final: a Rua da Aurora, exatamente no ponto onde as águas dos rios Capibaribe e Beberibe se encontram, unindo seus cursos em um dos cenários mais emblemáticos do Recife.

 

———————————— X ———————————-


Ao chegarmos ao nosso destino, escolhemos um dos bolsões de estacionamento que margeavam a rua — uma rua tão larga que mais parecia uma avenida, com suas duas pistas de cada lado e uma ilhota tímida separando os fluxos, como se tentasse impor ordem àquela vastidão urbana.


Ao longo daquele extenso trecho que vinha desde o centro da cidade, havia três desses bolsões, improvisadas concessões de espaço para prédios que, erguidos sem garagens, dependiam daquela borda entre o asfalto e o rio.


Era ali, justamente nesse intervalo — entre a cidade e a água — que ficava o nosso território.


No limite desses estacionamentos, já quase invadindo a margem do rio, estendia-se um longo banco de cimento, frio e silencioso, que àquela hora da noite nos pertencia por inteiro. Era ali que se instalaria a nossa assembleia informal — uma reunião sem pauta, sem ata e, sobretudo, sem hora para terminar.


À frente, quase como sentinelas discretos, pequenos postos de gasolina resistiam à madrugada. Eram mínimos: duas bombas alinhadas, uma ao lado da outra, e uma geladeira baixa, dessas de comércio modesto, onde repousavam algumas garrafas de água, sucos, cervejas e uma ou outra Coca-Cola, aguardando clientes tão ocasionais quanto nós.


Mas havia um detalhe importante — estratégico, até.


Dois jovens sentados à beira do rio, na penumbra, poderiam facilmente despertar suspeitas nas rondas policiais que, de tempos em tempos, atravessavam aquela via. E nós, ainda que inocentes em essência, éramos profundamente conscientes do mundo ao nosso redor.


Foi então que criamos nossa própria camada de disfarce.


Levávamos conosco, dentro de mochilas de couro a tira-colo — dessas que os últimos ecos do movimento hippie ainda insistiam em manter vivas, mesmo já em 1978 — alguns manuais bancários, ostentando orgulhosamente os logotipos das instituições onde trabalhávamos.



Chegávamos ao posto com os livros nas mãos, como quem carrega responsabilidades. Pedíamos uma cerveja, pagávamos adiantado e, com naturalidade ensaiada, avisávamos que iríamos nos sentar ali, à beira do rio.

E então começava o teatro.

— E como estão as mudanças lá no Bandepe? — perguntava Ciro, com um ar de preocupação quase acadêmica.

— Rapaz… aquilo lá está meio enrolado. Ainda não sabemos no que vai dar — respondia eu, grave, como se estivesse à beira de uma decisão institucional histórica.


Tudo aquilo tinha um único propósito: parecer.


Parecer que éramos dois jovens aplicados, discutindo burocracias e reformas administrativas, quando, na verdade, nem nós sabíamos ao certo para onde a conversa nos levaria naquela noite.


E por que tanto cuidado?


Porque, se uma ronda policial resolvesse parar ali — e isso não era raro — bastaria uma pergunta ao frentista para que toda a nossa encenação fosse colocada à prova. Queríamos que, se interrogado, ele pudesse dizer, com convicção, que nos ouvira falar de trabalho, de banco, de coisas sérias. Qualquer coisa que nos afastasse de suspeitas mais… criativas.


Eram outros tempos. E os “meganhas”, como dizíamos, não eram exatamente conhecidos pela delicadeza.


Instalados no banco de cimento, sentávamo-nos frente a frente. Entre as pernas, a cerveja. Entre nós, o silêncio cúmplice de quem sabe que a noite ainda está só começando.


E então vinha o ritual.


Um gole generoso do nosso precioso xarope — o suficiente para que a codeína começasse, lentamente, a redesenhar o mundo ao nosso redor.


Por precaução, os frascos não ficavam conosco. Eram cuidadosamente escondidos à distância, debaixo de alguma árvore próxima — uma pequena medida de segurança, caso a noite resolvesse nos testar com uma abordagem inesperada.


Ali, entre o cálculo e o delírio, entre a vigilância e a liberdade, começava, de fato, a nossa noite.


Dali, sentados à beira do rio, podia-se ver o desenho curvo dos fundos do Palácio das Princesas acompanhando o encontro dos dois rios, como se a própria arquitetura tivesse aprendido a se dobrar à geografia. As luzes da cidade se refletiam na superfície escura, fragmentadas pelo movimento lento das correntes, enquanto o palácio, sereno, observava tudo como um guardião antigo. 


Ao fundo, o Recife se erguia em planos de luz e sombra, e nós, entre um gole e outro de liberdade, assistiríamos àquele espetáculo como quem, por algumas horas, havia escapado completamente do mundo.



Aquilo era essencial.


Porque seria a partir daquele instante que tudo começaria a se deslocar — lentamente, quase imperceptível no início — como se a própria noite ajustasse seus contornos para nos acolher em outra frequência.


A codeína, silenciosa e paciente, iniciaria o seu trabalho.


E tudo aquilo que havíamos ido buscar — sem saber exatamente nomear — começaria, enfim, a se revelar.


O rio deixaria de ser apenas rio.A cidade, mais do que cenário.O tempo… menos rígido.


O que se anunciava ali não era apenas uma noite diferente, mas uma espécie de travessia: sair da superfície conhecida das coisas e tocar, ainda que por algumas horas, uma borda mais rarefeita da realidade.


Algo que não cabia na lógica dos dias.


Algo que se sentia mais do que se compreendia.

Uma experiência quase cosmo-sensorial — como se, entre um gole e outro, entre uma risada e um silêncio, nos aproximássemos de uma frequência oculta, sempre presente, mas raramente acessível.

Mas isso… ainda estava por começar.



              ——————————————— X ———————————————


Havia, contudo, um detalhe que não pode passar despercebido — quase uma ausência inaugural, dessas que, ao invés de faltar, fundam.


Naquelas noites, a música — nossa eterna companheira nas viagens cósmicas que inventávamos para sobreviver ao mundo — não estava presente.


E, ainda assim, tudo era música.


As luzes da cidade, piscando ao longe como pirilampos urbanos, começavam a se dissolver no escuro, enquanto outras, mais íntimas e indecifráveis, acendiam-se dentro de nós, em pontos que nenhum mapa ousaria registrar. O rio exalava seu cheiro antigo, denso, quase mineral, e a brisa que vinha do mar tocava a pele como um sopro de origem remota — algo entre lembrança e presságio.


Era então que o inaudível se organizava.


Sem instrumentos, sem melodia reconhecível, sem compasso que pudesse ser contado, tudo ao redor — e dentro — passava a vibrar como uma sinfonia secreta.


Uma música sem autoria, feita de lampejos, de correntes, de respirações e silêncios, que nos conduzia, sem aviso, por territórios onde o pensamento já não comandava.


E os devaneios vinham.

Permitidos ou não.

Desejados ou não.

Pressentidos ou absolutamente inesperados.


Eles emergiam como quem sempre esteve ali, à espreita, aguardando apenas a suspensão do mundo ordinário para se manifestar em sua forma plena.


E então compreendíamos — ainda que sem palavras — que talvez, naquela noite, naquele ponto exato entre a cidade e o rio, entre o corpo e o que o excede, nossas músicas de cabeceira… aquelas que tantas vezes haviam nos conduzido…

simplesmente não eram mais necessárias.


Porque nós próprios — atravessados, abertos, em estado de escuta — havíamos nos tornado a própria música.


E então… já não éramos exatamente nós.


Havia um instante — impossível de marcar no relógio — em que o eu começava a se desfazer, não em ruptura, mas em diluição. Como se algo em nós, cansado de fronteiras, resolvesse escorrer para dentro da paisagem. Já não sabíamos ao certo onde terminava o corpo e onde começava o rio. A brisa atravessava sem pedir licença, as luzes nos habitavam, e o pensamento… esse já não comandava coisa alguma.


Éramos atravessados.


Pelo tempo, pela noite, por uma vibração que não tinha nome, mas que nos reorganizava por dentro. Cada sensação parecia expandir-se para além de si mesma, como se carregasse ecos de algo muito maior — algo anterior, talvez, à própria ideia de mundo.


E, de repente, tudo acelerava.


Não como um movimento externo, mas como uma compressão silenciosa do tempo. A noite, que em outras circunstâncias se arrastaria lenta e pesada, ali se contraía — como se fosse sugada por uma força invisível. Um segundo continha horas. Um olhar, uma eternidade.


Era como se tivéssemos sido abduzidos.



Arrancados do fluxo comum e lançados numa travessia sideral, onde o tempo já não obedecia às mesmas leis. Viajávamos — não sabíamos para onde — numa velocidade que não se media em quilômetros, mas em intensidade. E, como nos relatos improváveis daqueles que dizem ter ido e voltado, o descompasso se impunha: lá, alguns instantes; aqui… uma madrugada inteira desfeita.


Quando demos por nós, o dia já estava ali.



O sol irrompeu pela Rua da Aurora — fiel ao seu nome — como quem anuncia o retorno inevitável. Ali, a luz chegava primeiro, invadindo tudo, redesenhando contornos, expulsando suavemente os vestígios daquela outra realidade que, há pouco, nos parecia mais verdadeira do que qualquer outra.


Voltávamos.


Mas não os mesmos.


Algo havia sido tocado — e, uma vez tocado, não se recolhe mais. Nossos sentidos, agora, carregavam uma memória ampliada do mundo. Como se tivéssemos aprendido, ainda que por algumas horas, a escutar frequências que permanecem ocultas na vida comum.


E então vinha a parte mais delicada da travessia: o retorno ao cotidiano.

As casas. As esposas. As explicações.


Era preciso sustentar a versão mais plausível: duas pessoas que, como sempre, haviam se perdido em conversas intermináveis — daquelas que começam sem rumo e terminam sem conclusão. E, de fato, não era exatamente mentira. Apenas não era toda a verdade.


Íamos juntos, um à casa do outro, quase como quem oferece prova material de inocência.


E elas, sábias à sua maneira, aceitavam.


Não sem antes decretar, com a firmeza de quem governa o dia:

— Não quero saber se você dormiu ou não. Hoje você prometeu levar as crianças ao parque. Então tome o que for preciso… porque eu quero você bem acordado.


E ali, diante daquela sentença simples e irrefutável, compreendíamos que toda viagem tem um preço.


O dia se tornava denso, arrastado, quase hostil. O corpo, ainda preso a outra frequência, resistia ao retorno. Mesmo jovens, havia um limite — e ele se fazia sentir em cada gesto, em cada tentativa de parecer funcional dentro de um mundo que, naquele momento, nos parecia excessivamente concreto.


Mas, no fundo… havia um segredo.


Um leve sorriso interno, quase imperceptível.


Porque, apesar do cansaço, apesar do peso do dia, apesar das obrigações que nos puxavam de volta…

sabíamos.


Sabíamos que, na noite anterior, havíamos tocado algo raro.


Algo que não se explica, não se prova, não se repete à vontade.

Uma fresta.


E, por mais penoso que fosse o dia…

não havia como estragá-lo completamente.


Porque a noite — ah, a noite —tinha sido absolutamente nossa.

 
 
 

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