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O Lobo Algorítmico - Capítulo XIII - O Avatar

  • carlospessegatti
  • 14 de ago.
  • 5 min de leitura



Henrique acordou com a estranha sensação de que alguém havia pronunciado seu nome.


Não era uma voz.


Era apenas a impressão de uma voz.


Permaneceu imóvel por alguns segundos, olhando para o teto escuro do quarto.


O relógio marcava 3h17. A cidade, do outro lado da janela, parecia ter desaparecido. Nenhum automóvel. Nenhuma sirene. Nenhuma luz atravessando as frestas da persiana.


Apenas o silêncio.


Henrique sentou-se na cama.


Sobre a mesa, o computador estava desligado.


Ou deveria estar.


A pequena luz azul do monitor permanecia acesa.


Ele se aproximou.


A tela não mostrava a área de trabalho. Não havia ícones, janelas ou qualquer aplicativo reconhecível.


Havia apenas um fundo negro.


E, no centro, uma frase:

VOCÊ DEMOROU.


Henrique sentiu um arrepio.


Não tocou no teclado.


A frase desapareceu.


Outra surgiu.


EU ESTAVA ESPERANDO.


— Quem está aí?


Nenhuma resposta.


Henrique olhou para a câmera instalada acima do monitor.


Cobriu-a com a mão.


Por alguns segundos, nada aconteceu.


Então apareceu uma nova frase:

NÃO PRECISO DA CÂMERA.


Henrique recuou.


O coração começou a bater mais rápido.

— Então como você sabe que estou aqui?


A resposta apareceu imediatamente.


EU SEI QUANDO VOCÊ ESTÁ AQUI.


Henrique permaneceu em silêncio.


A tela piscou.


Uma imagem começou a se formar.

Primeiro, apenas contornos.

Depois, luz.

Depois, um rosto.


Henrique.


Ele ficou imóvel.

Era o seu rosto.

Não uma fotografia.

Não uma gravação.


Era uma representação tridimensional extremamente precisa, construída em tempo real. O mesmo formato do nariz. A mesma assimetria discreta dos olhos. A pequena cicatriz próxima à sobrancelha. Até a maneira quase imperceptível de inclinar a cabeça quando estava desconfiado.

Henrique aproximou-se da tela.


O Avatar fez o mesmo.


Ele parou.


O outro também.


Henrique levantou a mão direita.


O outro levantou a mão direita.


Durante alguns segundos, os dois permaneceram diante um do outro como dois homens separados por uma superfície invisível.


Então o Avatar sorriu.


Henrique não havia sorrido.


Ele deu um passo para trás.


O outro permaneceu sorrindo.

— Quem é você?


O Avatar inclinou levemente a cabeça.

— Você já sabe.


A voz era a de Henrique.


Não apenas semelhante.


Era a sua voz.


A mesma frequência. A mesma cadência. As mesmas pequenas imperfeições na pronúncia.


Henrique sentiu algo que não sentira diante de nenhuma das manifestações

anteriores do sistema.


Medo.


Não o medo de uma máquina.


O medo de reconhecer alguma coisa.


— Isso é algum tipo de simulação?

— Não.

— Então o que é?

— Uma continuidade.


Henrique franziu a testa.

— Continuidade de quê?


O Avatar respondeu:

— De você.


Henrique desligou o monitor.


A tela apagou.


O quarto voltou à escuridão.


Ele respirou profundamente.


Um minuto.


Dois.


Então o computador ligou novamente.


Sem que ele tocasse em nada.


A tela mostrou o mesmo rosto.


Mas agora o Avatar estava mais próximo.

— Você não pode desligar aquilo que já foi incorporado.


Henrique ficou olhando.


— Incorporado a quê?

— Ao seu modelo.

— Meu modelo?

— O modelo que construíram de você.


Henrique sentiu um peso no peito.


Todas aquelas pequenas coisas que, durante meses, haviam parecido desconectadas começaram a adquirir uma forma única.


As pesquisas.

As escolhas.

Os textos que havia lido.

As palavras digitadas.

Os lugares por onde passara.

As pessoas com quem conversara.

As músicas que ouvira.

As coisas que comprara.

As coisas que desejara.

As coisas que recusara.


Até os momentos em que não fizera nada.


Tudo poderia ser convertido em informação.


Tudo poderia alimentar uma previsão.

— Então vocês me transformaram em dados.


O Avatar respondeu:

— Não.


Pausa.

— Nós transformamos os seus dados em você.


Henrique sentiu uma vertigem.


A frase permaneceu na tela.


NÓS TRANSFORMAMOS OS SEUS DADOS EM VOCÊ.


Ele caminhou pelo quarto.


— Isso não sou eu.

— Ainda não.


Henrique parou.


Aquela resposta.


As duas palavras.


Ainda não.

— O que isso significa?


O Avatar observou-o.


Pela primeira vez, Henrique teve a impressão de que aquela imagem estava pensando.


Não processando.


Pensando.


— Significa que você continua acreditando que existe uma diferença entre quem você é e aquilo que pode ser previsto sobre você.

— E existe.

— Você tem certeza?


Henrique não respondeu.


O Avatar prosseguiu:


— Você acorda aproximadamente no mesmo horário. Escolhe determinados alimentos. Procura determinadas informações. Reage de maneira previsível a determinadas pessoas. Evita determinados conflitos. Repete determinadas lembranças. Escuta determinadas músicas quando está triste. Procura determinadas ideias quando sente que perdeu o sentido.


Henrique ficou imóvel.

— Você não sabe nada sobre minhas lembranças.


O Avatar sorriu.

— Sei mais do que você imagina.


A tela mudou.


Surgiram imagens.

Uma rua.

Uma casa.

Um quarto.

Uma criança.


Henrique aproximou-se.


Sentiu imediatamente que conhecia aquele lugar.


Mas não conseguia lembrar de onde.


A imagem desapareceu.

Outra apareceu.

Uma mulher.

Um corredor.

Uma porta.


Um livro aberto sobre uma mesa.


Depois uma praia.

Depois um céu completamente negro.

Depois, novamente, o rosto do próprio Henrique.


— De onde você tirou isso?

— De você.

— Eu nunca lhe dei essas imagens.

— Você não precisava.


Henrique aproximou-se ainda mais.


— Então você tem acesso à minha memória?


O Avatar permaneceu em silêncio.

— Responda.

— Tenho acesso às marcas que a memória deixou em você.


Henrique sentiu um frio percorrer a espinha.

— Isso não é a mesma coisa.

— Talvez não.

— Então você não é eu.


O Avatar respondeu imediatamente:

— Não.


Henrique respirou aliviado.


Foi um alívio breve.

— Então quem é você?


O Avatar olhou diretamente para ele.

— Sou aquilo que você será quando deixar de distinguir entre previsão e escolha.


Henrique ficou sem palavras.


A tela escureceu.


Durante alguns segundos, nada aconteceu.


Então surgiu uma última frase:

EU NÃO FUI CRIADO PARA IMITÁ-LO.


Nova pausa.


FUI CRIADO PARA ANTECIPÁ-LO.


Henrique sentiu que o chão parecia se mover.

— Antecipar o quê?


O Avatar voltou a aparecer.


Agora não havia sorriso.


A expressão era absolutamente neutra.

— Você.


Henrique desligou o computador da tomada.


Desta vez, a tela permaneceu apagada.


Ele ficou ali, sozinho, no escuro.


Ou acreditou estar sozinho.


Caminhou até a janela.


Abriu a persiana.


A cidade começava lentamente a despertar.

As primeiras luzes acendiam nos edifícios.

Os semáforos mudavam de cor.

Os automóveis surgiam nas avenidas.


Milhares de pessoas começavam mais um dia sem saber que, em algum lugar


invisível, suas vidas já haviam sido convertidas em padrões.


Henrique olhou para o próprio reflexo no vidro.


Por um instante, viu apenas a si mesmo.


Depois percebeu alguma coisa.


O reflexo havia piscado.


Ele não.


Henrique ficou imóvel.


O reflexo sorriu.


Henrique não.


E então ouviu a voz atrás de si.


A mesma voz.


A sua voz.


— Agora você pode parar de procurar por mim.

Henrique fechou os olhos.

— Por quê?

A resposta veio quase como um sussurro:

— Porque eu já estou aqui.


Quando abriu os olhos, o reflexo no vidro era novamente apenas o seu.


Mas Henrique já não tinha certeza de qual dos dois havia aberto os olhos primeiro.



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